A Bíblia dos mortos

Nasci um bocadito exausto como o Armindo, meu falecido irmão que expirou aos quatro anos de idade e talvez esta morte seja uma das pouquíssimas coisas que guardo dele. Embora não entendesse praticamente nada na altura, mas ouvia dos vizinhos que o Armindo tivesse tuberculose. Os meus pais viam a doença como se se tratasse de um assunto dos mais crescidos.

Por isso que sempre que o sol esboçasse um sorriso alaranjado enquanto sumia pelas cortinas escuras do céu, eu ia me esgueirando pelo corredor do quintal da sala com o Armindo no colo, todo tapado a lençol escuro para que o beijasse na testa às escondidas, desse ao meu estremecido irmão um abraçozito que perdurasse a vida e morte todas; estando ali a conduzir os seus cabelos com a palma da mão à medida que  o via embalar-se em meu peito, era a única forma que me permitia gozar dos direitos de irmão que eu tinha; e a última vez que me sacudi da poeira dos receios tomando  o meu irmão ao colo com um  lago de lágrimas transparecendo  em seu rosto, ele  todo magrito e o seu rosto definhado, tão sem cor  equiparando-se    aos fervorosos  suores sem foz que, paulatinamente, iam cavando valas de denúncia sobre a doença em si; foi nessa maldita terça-feira carregada de morte que até hoje nega de se apagar em mim.

“Deixe o teu irmãodito chorar um pouco”, “deixe o teu irmãodito chorar um poucozito só”; a minha mãe falava furiosamente, todavia com todas as  certezas de que esses  choros, por mais rápidos que fossem,  fariam com que  a tísica desvanecesse integralmente do Armindo.

É uma pena, pois nunca levei jeito para contar histórias, nem para que levasse o meu finado irmão ao jardim, quiçá com um sorriso pendido num dos cabides quaisquer da árvore enquanto admirávamos o canto dos pássaros.

Lembro-me  daqueles olhos morrediços que em si escondiam um rosto maior que a doença sempre que chorasse, era como se Deus vestido de um avental dos fogões confeccionasse saborosos rissóis de carinho num santo domingo último do ano, ao contrário da avó Rute que subtraíra da Atália, uma sobrinha   que nunca chegou a ser minha, porque a morte antecipou-se; eu sei que a vovó Rute tinha  intimidades perfeitas com Deus, uma vez à outra trajava o seu coração de insensibilidades para que pudesse inventar óptimas desculpas  enroupadas de rejeições para que negasse a comida que os filhos traziam; ela foi uma  talentosa atriz  de estômago vazio tanto que ninguém pôde a convencer de nada até à sua sucumbência no penúltimo Dezembro passado.

Após à separação que houve entre os meus pais em Maio do ano passado, eu fugi de casa como quem foge de si próprio para morar no ser dos outros; naquele dia, a inexperiência ensinou-me a rasgar as roupas da rua com a fome aplaudindo à busca de paz.

Contudo, a vida virou uma mão esquerda de absurdos; cresci o suficiente, mas não paro em casa há uns sete anos, aliás, ainda ontem, foi o último setembro do ano que por pouco morria mais um bocado por toda minha vida.

Habituei-me  à solidão, não é de hoje, desde que perdi as minhas três filhas naquela Pontinha do rio Zambeze mesmo com a minha ex esposa agora falecida, dando-me forças, desaprendi a viver e, sem esforço, percebi que o meu único talento era de ser o culpado de tudo. Todavia, até hoje penso que  podia ter feito alguma coisa; os meus vizinhos criam de pés juntos que eu tivesse assassinado as minhas filhas, que horror.

Sou viúvo, mas tampouco me dói, talvez sejam os únicos traços que puxei ao meu pai. Ele fora um grande militar, um senhor com o rosto alojando cicatrizes do tempo, o  mundo todo desabava quase sempre em seu corpo, contudo resistia, é uma pena que não tenha podido lutar contra morte.

A noite continua sobre a minha cabeça e, curiosamente, tenho dois livros por entregar ao meu editor; não sei classificar os géneros, pouco importa, mas daqui à algumas semanas  devo estar de viagem. Preciso estar em constante andamento, não aguento tanta morte, ontem perdi o meu cunhado,  seria mais um livro a sair, enquanto abro o último garrafão de whisky, mas pertenço mais ao cemitério; os  viúvos costumam rodear-se  de rosas; Deus me livre a um pensamento fruto da velhice.

Os meus netos, por exemplo, esses mesmos que um partiu o  braço, falo do Hércio,  o mais velhinho, saiu do hospital onde esteve internado, é por aqui perto e esse  meu filho que de responsabilidade só soube engravidar, depois reclamações, muitos  sumiços para algum sítio sabe lá onde; essa parte poderia encaixar  no terceiro livro, costumo escrever como quem olha o céu com sinceridade. O bar vai fechar, estou sem fósforo para fumar; devo continuar conservando essa memória tua, ó amor, com todo teu encanto naquele cigarro que nunca cessava, que nunca paravas de fumar com o outro dedo a chocalhar a panela, eu juro, não matei as nossas filhas, eu juro pela minha mãe que também já não existe, amor... eu juro que não me dói... amor.

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