As mãos que inventaram a minha morte

- O cobrador foi o culpado nessa novela de se espalhar doenças horríveis pelo mundo. Disse a mana Elisa enquanto agitadamente escovava os seus encaracolados cabelos; e o sangue de sua raiva não cessava, continuava a lhe escorrer pelas veias das mãos.

 - Mana, ele só estava a fazer o seu trabalho, por que gosta de polemizar suas discórdias e os não assuntos para com o trabalho dos outros, menos, manooo, entenda,

 - Que trabalho, Lucas, recostar a sua pilha de sovaco nos meus cabelos como se se tratasse de um   outro marido meu, mesmo o meu ex-amante, Manuel, reservava algum respeito por algumas partes do meu corpo que só cabiam ao Jaime , meu esposo, tocá-las, - pausou, quando quis intervir, ei-la que rapidamente avançou, - nem por imaginação, não gosto; sua boca entulhada de pêlos  selvagens soltava gases satânicos, sabe, inclusive me empurrou com os seus ombros carregados de raiva como se  a culpa de ele ser paupérrimo e feio dos diabos fosse minha; sacolejava os meus seios com os seus olhos libertando gozo, Lucas, desfilou àquelas conspurcadas mãozitas   numa   zona  proibida sem um pingo de mar, ...de respeito, aliás...

Ela estava tão alterada, com o rosto lívido, alma melindrada, olhos escuros tal qual o infortúnio que houve na casa do tio Vilanculos, onde os gestos desobedeciam os seus dizeres,

- Mana Elisa, deixa-te de ser dramática, não parece ser mais aquela mulher de Deus, até o tapa que bruscamente nasceu da tua mão esquerda sem útero, e fez voar a caspa na cara do cobrador, foi tamanha surpresa para mim,  falo daquele momento que sem intenção, ele te apalpou  as nádegas, parecia a esposa do Lúcifer, que violência praticada com bom humor, por mim, teria que jejuar até que Jesus Cristo volte;  e, viu o rosto daquele senhor, contemplava-te  com certa comiseração; eu ardia de pena, nem um pio, tanto que vi-te a engolir a mosca despeitosamente, mana, não importa se estava  terrivelmente zangada, aprenda a fechar a boca e, se puder, compre carro, aquela vergonha foi asnamente um rebaixo à alta classe da nossa família.

Estávamos na cozinha de caniço, o fumo escapava pelas frestas das canas delgadas onde se conseguia observar o começo do céu; eu segurava num prato plástico, a noite aproximava-se escombrosamente e enchia o quintal todo da cidade, a mana Elisa largava a sua escova enquanto puxava o bidão e, lentamente, permitia-se decaír, estava toda atentadita em mim,

- Coma aí, tudo que fala é besteira, Lucas, tire as tuas malditas e imundas mãos da minha camisola, exijo respeito, num santo Domingo como esse, o diabo entra-me de chinelos com pele lisa como se fosse a barriga de uma serpente,

- Mana, não grite comigo, quer ser cobradora da paciência dos outros, não mereço, anda tão meditabunda, se os teus "Joãos" não te assumiram e continua aqui, o problema é teu, ademais, aprenda a se dirigir à minha pessoa, não levante esse teu queixo aí como se de uma pata se tratasse, aliás, até a pata sabe correr, você só vai a escorregar, mana, estamos em confinamento, deixe os maridos das outras em paz; enfrenta os "novos Corona vírus" e abandona-me aqui para ser encostada nos muros, ser estendida no chão como se fosse metro de construção civil, fique em casa. Falei impacientemente, a exasperação tinha atingido o cume da minha alma,

- Lucas, nem vou responder-te, é um tempo perdido no ventre da tua mãe, alguns de vocês, são homenzinhos efeminados, um bando de mimalhos de quinta, fiquei constrangida com a ejaculação analfabeta daquele jovem no chapa que subimos, falando mal das mulheres, aquilo é inveja, infundia inverdades com aquele tom machista barato,  acha que nós mulheres somos objectos sexuais, que sofremos a violência por gosto, que os feminicídios que têm havido é por nossa culpa, só queria que aquele filho da mãe tivesse um ano de cólicas e o período menstrual a lhe escorrer pela boca e do coração, veria o ser insignificante que é, para deixar de ser intrometido nos assuntos que desconhece.

A mana Elisa não era bonita, tinha um corpo derreado, lábios carnudos que mudavam de cor sempre que o sol se punha, possuía um nariz formigante que, em todo santo segundo introduzia o dedo como se caçasse o mel produzido pelas narinas, era gordinha, falava como se revolvesse as lembranças da sua avó que morrera na zona do Jardim, depois de estertorar, pois voava de noite usando a peneira, forma como os vizinhos relatavam, e teve uma queda irreparável que, com pressa, perseguira a morte; a mana Elisa tinha vinte e oito anos,

-  Mana, hiii, pega leve! Mas será que esse cobrador tem família, que desplante ele teve, vi-o a enfiar aquela velha de idade naquele cantinho quente, o mano Pedro, quando vivo, daria bons ensinamentos básicos sobre respeito aos mais velhos àquele chato e imbecil com uma sova; - ela repentinamente ficou muda, muito esquálida, - ficaste diferente, pálida, de repente,

- Sim, Lucas, às vezes penso na nossa  mãe, ela já não está mais aqui para implicar connosco como antes, pior, partiu de uma forma trágica e subtil, só de imaginar que nos deixara por egoísmo, porque o mano Sebastião fora atropelado por um camião não resistindo; e, não aguentou a morte de um filho, ao passo que abraçou a vertigem, não se dá para crer, todavia, mãe é mãe, só que pendurar-se na mangueira e entregar  a vida às alturas como se fosse encontrar uma outra vida fora do corpo, dói, há que morrer com talento e classe; isso mostra que nós, para ela, nunca fomos nada.

Quase eu chorava, uma lágrima rasgou a polpa dos olhos e montara oceanos, me visitava com intimidade, tanto que acabei ficando com o rosto franzino, olhos vermelhos como se o sangue se entornasse de fora para dentro de mim,

- Mana, não fale assim, aliás, a avó Cacilda Nhambau sempre tem dito, " tenhamos o máximo respeito pelos mortos, por simples facto de não poderem se defender". Ela mudou-se de uma forma inesperada, olhos pespegados, o rosto envelheceu e o susto tomou conta de mim, que quis levantar-me e correr,

 

- Cala tua boca, Lucas, tu não entendes nada e, santa-te aí que eu te explico, aquela Maria Mbunha da nossa mãe nos refreava, recorda do dia que o falecido mano Sebastião quase foi linchado por ter furtado a botija da tia Angelina, aquela vizinha mudou-se agora para Nampula, a mamã foi a casa daquela senhora e chorou que nem uma vaca, aquela tão nossa estúpida de mãe, foi um fracasso, sinceramente...

Não me contive, dei uma boa chapada na minha irmã,

- Lucas, bateu-me por quê?

- Não gosto que fale assim da nossa falecida mãe! Os nervos eram tantos que corri para o quarto,

- Pode fugir, mas isso não vai ficar assim. Gritou a minha irmã!

Por ser o mais novo, ou talvez, porque quase todos afundaram suas vidas, a dor, a tristeza e as brigas têm sido o meu " Pai nosso", vivo morto nesta casa, colado ao sofá, quieto com o vazio a desfilar pelos cantos sem mim, atirei-me na cama, a vida me pesava e o corpo ia me espancando até se derramarem    suores leitosos  das minhas lágrimas que  saíam incessantemente  pelos olhos, - sou órfão de pai e mãe, vá lá que o pai da mana Elisa existe, o senhor Humberto Ndiche, um homem bom, de setenta e cinco anos, nariz grosso, pele densa, olhos roxos, tinha cabelos brancos, fora contaminado por um vírus da família Corona vírus que provoca uma doença chamada COVID-19 quando viajou à Roma, mas, graças ao seu dinheiro, de Deus não posso afirmar, resistiu; às vezes, o ódio me vinha com leveza, a um passo da morte, contudo, recuava por pena de mim, da minha irmã que não mais teria alguém para brigar, pois me garantia a mim mesmo que aquela boca da mana Elisa, só crescia por conta do saldo que fazia sempre o telefone vibrar. Pensava também no meu pai, que em 1988 era director executivo dos Portos e Caminhos de ferros de Moçambique, morreu porque um colega o matou, por inveja, mas isso não importa; meu pai ensinou-me a sorrir, tinha que sorrir para esquecer a vida, daí, sem vida, a tristeza me mostraria um óptimo sorriso.

Sem esperar, a minha irmã apareceu com um machado nas mãos, eu estava deitado de peito a contemplar os meus lamentos, senti o machado vingativamente a gretar a minha cabeça, tudo dividido, o mundo, a minha mana com os olhos arregalados admirando o sangue nos seus dedos das mãos, deu arrecuas: o objecto mortífero, o cadáver, o sangue, a morte na cama, no quarto, tudo cheirava morte; a mana Elisa gemia se pondo de joelhos, mãos enterradas na cabeça, estava lá o fim do mundo de mim; corpo  se despejando no soalho, a mana tinha inventado com as suas próprias mãos, a minha morte.

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