Crime no confessionário

Algures, na localidade de Zaqueu, posto administrativo do distrito de Morrumbene, a norte da província de Inhambane, Kandyane wa Aurtur, aos 85 anos, decidiu, quarenta anos depois, retornar ao templo católico e confessar os pecados, pois sentia a alma pesada, e previa a morte para breve.

"Mãe da Malaquias", disse a Kanhakudane à sua mulher.

"Acho que a minha hora aproxima-se, tenho de ir confessar os meus pecados."

Do lobolo, resultou uma prole de 13 filhos, dos quais quatro sucubiram a uma estranha diarreia, em princípios de 1981.

Soube-se, nessa altura, depois de se convocar o curandeiro, que a causa daquela tragédia era o facto de Artur wa Arturana, bisavô de Kandyane, andar desgostoso com o comportamento deste, que se resumia em dormir com viúvas sem olhos, em plena luz do dia.

Kandyane e Kanhakudade estavam há quarenta anos, tempo igual em anos à última vez que estiveram numa igreja.

Fora baptizado no auge da ocupação efectiva, quando os homens da terra ainda não se chamavam de irmãos para juntos expulsarem o colono.

"Desde que te conheci, pai do Malaquias, nunca foste à igreja."

"Fui baptizado quando miúdo, o mais importante é que sinto que tenho que confessar os meus pecados antes de partir."

"A minha hora chegou", esta última frase fora pronunciada com uma voz entrecorta e rouca.

Foi então que, em Setembro de 1990, no dia 15, Kandyane voltou a reler a biblia e romotou as lições do catecismo, para que, diante do padre — no dia 30 —, fosse fiel à interpretação da letra do princípio deste saber já escrito.

Naquelas duas semanas que antecederam o dia 30 — dia do crime no confessionário — era normal encontrar Kandyane, mesmo sob o efeito de Sura, bebida oriunda do coqueiro, a ensaiar a letra e a voz: "Perdoe-me, padre, porque pequei... tenho muita pena de vos ter ofendido..."

"Pai do Malaquiais", inquiriu Kanhadane, ao oitavo dia daquele hábito que se apossara do marido.

"As pessoas estão a dizer que estás a ficar maluco".

"Nunca foram à igreja. Dizem isso porque estão habituados à feitiçaria. Por isso é que se matam por tudo e por nada."

Na manhã daquele domingo fatídico, o sol despertara às 4.15, e os galos já cacarejam as suas melodias nunca pautadas.

O céu estava limpo, e, estranhamente, apenas uma nuvem cinzenta pairava sobre o primeiro coqueiro plantado no quintal dos Arturana. Kanhakudane preparou a água para o banho, preparou rale (farinha de mandioca), com chá.

"Quero ir em jejum. Matabicho à volta", disse enquanto contemplava aquela nuvem escura e pesada, mesmo em cima do coqueiro, como já ficou dito.

Vestiu o fato que vestira no lobolo: era castanho, com uma racha e tinha dois bolsos, calças de boca de sino, a moda da época, e calçou uns sapatos pretos que comprara recentemente nas calamidades.

Ao subir em direcção à estrada, para tomar o rumo da igreja, todos os vizinhos foram unânimes ao tomarem conta do ocorrência do crime, que Kandyane só podia ter o fim que teve.

A igreja estava repleta, pois naquele dia havia baptismos.

À esquerda do templo ornamentado de rosas, mesmo no fundo, tinha um confessionário.

"Papá, como é mais velho pode ser o primeiro a ir", disse um jovem que disciplinava a fila.

Kandyane entrou e como tinha décor os versos da suplicia e temor a Deus, começou por dizer ao padre que com a idade que tinha ainda fazia amor quatro vezes por noite com a mulher.

"Será pecado isto, senhor padre?", perguntou.

"Isso não é pecado", disse o padre. "Isso é mentira".

Ouviram-se dois golpes e três gritos.

Os crentes que estavam na fila para confessar, na esquadra local, apenas disseram que ouviram uns três gritos que se assemelhavam com o latir de um cão faminto. Era o padre.

Kandyane está a cumprir uma pena de prisão maior acusado de homicídio.

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