Edinise, o meu filho virou comida de balas

Eu entendo e compreendo todas as mensagens de consolo que me mandam, que preciso parar de chorar e tentar ser forte neste momento, mas de onde virá o apetite sendo que eu como mãe sinto que meu filho virou comida de balas?

Sei também que devia estar a alimentar esperanças de que um dia ele regressará mas nós somos mães e sentimos um vazio na alma quando um filho parte.

Ter esperanças é viver constantemente a ouvir o som do seu chinelo arrastado no corredor, é ver a luz do seu quarto acesa sendo que a EDM cortou energia, é sentir aquele cheiro de suor que inundava a casa quando ele regressava: eu cansei de alimentar essa esperança.

Bro, pessoas que lutam pela vida são engolidas pela fúria do mar, bebés estão a nascer sem pais, estão a raptar meninas inocentes para servirem de escravas sexuais. O povo moçambicano está a passar fome com a incerteza de que o sol vai brilhar amanhã, e vocês ainda querem que eu coma alguma coisa e tenha esperança, é mesmo?!

Meus joelhos ardem, já gastei todas as orações e súplicas, até João, Mateus, Lucas e Pedro sentem pena de mim e estão cansados de ser banhados com lágrimas, passo meus dias a soluçar, dou soco às paredes de tanta raiva, atribuiu-me a culpa de um dia o ter o incitado a lutar pela pátria.

Hoje caiu esta rajada de balas sobre o seu corpo, matou boa parte do meu ser, romperam-lhe a voz com uma catana que atravessou o seu pescoço, amordaçaram-no para não fazer barulho enquanto seus olhos testemunhavam o fim da sua própria vida.

Ninguém precisa contar-me o que aconteceu, todos os dias a minha mente viaja para mais um cenário de como pode ter sido a morte do Gito.

É claro que no job dele dirão que ele desapareceu mas isso não me consola, isso me destrói apenas. Meus olhos não têm sono, meu estômago está embrulhado, meus pés não têm mais forças, sou este resto de gente que, de quando em vez, vagueia pela rua na esperança de encontrar o seu filho.

O agravante é saber que a muitas outras mães são-lhes tirados os filhos todos os dias. Se estão a matar famílias inteiras o que será feito dos indefesos como o meu bebé?

Mais uma coisa: amanhã farei uma pequena cerimônia, vou enterrar algumas roupas dele e cravar na lápide o seu nome com o ensanguentado ano de 2021, chorar este luto e aproveitar para embebedar-me com a cerveja que o nosso pai inaugurou.

Tu és tia dele com certeza continuarás a orar por ele e a guardar a esperança do seu regresso, para mim basta!

Partilhe: