Que morra logo aquele animalzito de filho da Tina

Chego à casa e abro o portão  como quem vive abrindo o sovaco da vida para esconder-se de si próprio. São duas da manhã, os vizinhos, uns dormem e  os outros continuam bailando, sem música, o magrito corpo de sua voz; e pela lanterna do telemóvel, vou observando o gatinho do meu velho, agora sem corpo com a cabeça sumida e tantas  tripas que se  encontram espalhadas no lava-loiça causando  repugnância aos meus olhos. A lanterna apaga-se.

Estou muitíssimo nervosa, aqui em casa está sem  luz e o   silêncio é um cão faminto que morde no escuro. Encosto à porta e, pausadamente, vou içando as calças das cortinas na janela, uma claridade se estabelece, mas o Valter, meu filho, não existe. - Valter, meu Deus... sento-me desesperadamente na cadeirinha apoiada à parede com as   lágrimas se apressando pelas valas do rosto    como se debelassem as ardentes mágoas do peito; Jesus, a minha irmã faleceu, não se sabe de que forma, mas nos deixou. Fomos enterrá-la; possuía trinta e dois anos de idade e, aos vinte e um, enquanto voltava da igreja   com a nossa prima, foram brutalmente espancadas e violadas sexualmente. Isso apavora-me bastante.

De lá para ontem a sua vida nunca revelou-se a mesma, por diversas vezes tentou   suicidar-se cortando os seus pulsos, tomando quantidades consideráveis de drogas, ensaiando um salto à corda pelo colo, inclusive não conseguia   relacionar-se com mais ninguém; a minha falecida irmã sentia-se só e pouco sabia como lidar com isso; infelizmente, eu não podia fazer absolutamente nada. O meu filho Valter, é autista, às vezes nem consigo ter sequer um tempito  aqui, para ele; sobretudo nesses últimos dias,  agita-se tanto,  grita e tem amado rebolar  enquanto dispersa a sua   nudez; juro, é meu filho, mas é uma tarefa bem complexa cuidar dele, ao menos se a condenação terminasse só no meu ser pobre, um filho hiperativo, não; os meus vizinhos querem que o meu filho morra, porque é um animalzinho de estimação, dizem.

- Aquele animalzinho, filho da Tina...

- Se a mãe daquele animalzinho...não consegue ser rica, que deixe o bichozito dela morrer, que custa, que se dane logo o animalzito.

- Que atire o bichozito no olho da rua, é filho aquilo...

Santo Deus, o filho é meu e pronto.

Eu e a minha falecida irmã, Marta, perdemos a nossa mãe ainda cedo, eu tinha quatro anitos, foi nesse mesmo tempo que  o nosso pai desapareceu; fomos viver na casa dos tios,  mas ninguém pôde entender a minha irmã, ela tinha trauma para o caraças  tanto que desde lá  não aturava    mais ir à igreja, conviver com a gente, na verdade, não sabia mais viver.

Assim como a Érica, nossa prima, que não resistiu ao estupro tendo virado defunta nas mãos daquele homem, a nossa mãe também foi morta à mesma maneira; num  fresco dia de inverno, as bocas do céu murmuravam, quem sabe pela ausência do sol, via-se o  corpo da chuva perambulando por cima das casas, e  as  ruas andavam deprimidas de  tanto permanecerem vazias, sem gente;  a minha velha , desconfiada que era,  com o  seu corpo  carregando maiores debilidades, o estuprador não precisou de muito esforço para que a exterminasse , bastou ter medido uns curtos  passos sorrateiros pelo corredor da varanda, assistindo sucessivos sustos se desenhando na cara da   minha mãe para que, em pouquíssimos instantes, pudesse agarrá-la  pelos cabelos e atravessasse à barreira das coxas dela com a terceira mão e a fizesse  engolir penetrações agressivas e  pancadas à medida injusta do inferno.

 -  Valter, meu filho, onde estás? A tristeza é uma ponte que se me atrasa o peito.  Vou devagarosamente ao quarto, sem forças; um espanto é-me maior que o corpo, que desumanidade! não devo chorar; um olho aqui na entrada, faca coberta de sangue,  duas orelhas ali, pernitas por cima do travesseiro, camiseta amarrotada de sangue;  - Deus, Valter, amor, Valter, amor... Achego-me à camadita dele, a cabeça do meu filho está coberta, mas toda sem corpo, com toda razão Lobo Antunes, "uma mãe não tem direito de estar viva com um filho morto", declaro-me  morta. Mataram o meu filho. O meu celular toca, não posso atender, insistem, atendo, mas sem dizer nada.

- Vizinha, acabo de ver a cabeça do teu gatinho na entrada da minha casa.... a pele também, alô, vizinha...digo que o teu animalzito... vizinha...

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