Tavete não podia ter morrido

Entrei no quarto, de mansinho, ela estava de pé e abraçando a minha camiseta cor de rosa, a observei, de longe, na porta, antes de falar. Cheirava-na com ternura, sorria e fechava seus olhos, era como se guardasse todo céu no centro dos seios. As janelas do quarto estavam todas abertas, viam tudo, tal e qual eu que por alguns instantes cocei na testa, confuso. A Graça, talvez, estivesse a varrer antes de eu chegar, pois, à berma de si há uma vassoura, um bocado de sujidade no chão, até deixou despencar minha gravata, ah gravata?, não quis estragar o momento, mas o tempo passa, e se enche de si mesmo, é preciso um contratempo num ambiente deste.

- Larga, minha camisa. Tu não precisas fazer isso, estou aqui, sou todo teu. As noites passadas não importam mais, pois sou homem e, hoje, far-nos-emos melhor, acredite. Ei-lo meu cheiro, o que sou de novo em ti, desfrute o real. - disse tudo enquanto me achegava nela. Ela tomou um susto indefeso, gemeu suor e até caiu na nossa cama, detrás, como se fosse eu um causador de tanto mal, contudo, viu-me e os seus olhos ganharam brilho na lotaria do meu rosto, sozinhamente atraiu-se pela autenticidade.

- Hélder, meu amor, ah, és tu?! Disse, embasbacada. Estava lá com braços voadores feitos um pássaro, pronto para voar, aliás, abraçar.

Não disse mais nada porque o meu corpo tinha tido outro rumo, a fala contornava-me a alma e todo silêncio pintava a camiseta que insuportou a fragilidade dos dedos tensos da Graça. Já rumiam nos calabouços do meu rosto. Nos beijamos; que beijo, esse beijo cheio de Deus, a saliva era uma boa perfeccionista de loucura.

Parei porque o meu celular estava tocando. Nunca pensei que o prazer fosse tão ciente do que sou para que me obedecesse assim, respeitosamente. - Espere, Graça-Sol, é um colega do trabalho. Ela, de jeito nenhum queria cessar com o osculatório, mas precisava de um tempo. - Mas Hélder, justo agora?, fiquei de pé, o rosto tinha ganho outra dimensão da cor e os meus olhos inventavam rios de sangue.

Encolhi-me todo, as mãos tentavam ocultar a vergonha e a comiseração, porque a minha amante acabava de falecer. A Graça não parava de passar-me a mão nos lábios, pouco percebia do terramoto da situação que me tinha metido. - Amor, não posso mais continuar. Teimei empurrando o lençol para trás, evitando-lhe. Os meus olhos tiravam um mar vermelho, a Graça sentiu-se chocada pela preocupação e desespero que assolavam o meu estado. - Que se passa contigo, meu marido... que há nesse telefone... dá, quero ver, espere. Arrancou o telefone, fé suspensa, pouca força eu tinha para qualquer contradição abrupta, então, ela ia lendo, e o seu rosto entrava no mundo da decepção. - Meu Deus, estúpido, que vem a ser isto?, como foste capaz de... Encobriu-se a cara com a almofada, chorou, atirou-na, mas esquivei, só travou no corpo do meu computador. Não tinha o que dizer, pior, ela tinha toda razão, logo hoje, que seria mais um dia de prazer incomensurável, ademais, eram vinte e um anos casados; desvendou o lado podre meu, ia pensando. - Você não presta, eu vou embora, porém, diga-me, assim quem faleceu, como é que vai ser, irás me trair com ela no caixão?, diga, é essa vadia que te tirou a tesão agora? Falava a Graça, com raiva. Dei-a uma trocha de chapada, fiquei violento por um instante, errei, mas, que haja limite, sou marido dela. Ela desceu da cama, foi ao espelho, bateu o meu celular com o chão e sorriu, sarcástica. - O que você fez... vai embora, só agora percebo o quão a Tavete fazia melhor que tu, ela sim, transava para valer. Tu não és nada, estás gasta, "vaginista". Ela escutava, se tacteando na parte inchada, atingida pela sovação, mordia os lábios, os seus olhos cinzentos e em nebulosidade roçavam as paredes como se desnudassem os nervos do dia. E, inesperadamente, virou e abraçou-me, já estava tomado nos seus beijos e o quarto estava a aplaudir o nosso amor analfabeto.

- Hélder, da próxima, quando te zangares, que a tua violência seja mais humana, saiba que o amor não tem ortografia; agora vá, componha-me os sentidos com as tuas mãos, esqueça a Tavete, esqueça-se, faça-me mulher.

A Tavete não podia ter morrido, mas que merda, que merda... Tavete, não. Bradei para dentro de mim.

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