Hortêncio Langa (1951 – 2021): Maputo assistiu, hoje, o “recolher” da voz que pincelou a sua beleza

A cidade de Maputo, pelo segundo mês consecutivo, não poupa aos seus munícipes. Agora, a par de outras capitais provinciais, recolhe a sua gente às 22h00. A Hortêncio Langa, esta cidade foi mais ferroz, recolhendo-o às profundezas do solo pelas 11h00. Que crueldade!

Este Maputo, que foi apelidado “xonguile demais” (muito bonito) não teve dó nem piedade, tendo pedido ao filho Michafutene para receber a voz que mais soube “pincelar” a sua beleza, através de “Maputo” – música que passeia nos paladares de vários intérpretes pelo seu ode mágico à cidade das acácias.

Antes de familiares e amigos acorreram à Michafutene, o último adeus deu-se na Capela do Hospital Militar, às 9h00, num auditório que não respeita o punho deste embondeiro das artes em Moçambique, que sempre cruzou à magia da composição musical com a de compor obras literárias e plásticas, mas que respeita às restrições deste tempo cruel.

 

Aos jovens, colegas e amigos recomendam estudo à obra de cinco décadas

Os olhos de Hortêncio Langa fecharam-se nesta segunda-feira (12), vítima das investidas da COVID-19, depois de uma semana a lutar pela vida no Hospital da Polana Caniço.

São mais de 50 anos entregues às artes, com toda a intensidade que ela merece. São cinco décadas de história que os artistas defendem o seu profundo estudo. Elvira Viegas, que ombreou com o malogrado durante 17 anos na Associação dos Músicos Moçambicanos, considera primordial a divulgação da obra de Hortêncio Langa a vários níveis para que os mais jovens sigam o seu legado.

Para Wazimbo, amigo de infância do artista e colegas na banda juvenil Rebeldes do Ritmo, recomenda que os ensinamentos de Langa sejam seguidos.

Em 51 anos de carreira, Hortêncio Langa tocou com muitos músicos. Envolveu-se na banda Monomotapa, Grupo RM, TP50 e um dos seus grandes projectos é o Alambique, fundado com Arão Litsure. Para este, é preciso que se pesquisem os trabalhos de Hortêncio Langa, para além dos aparentemente conhecidos, pois só assim a sua história será contada na plenitude.

 

Hortêncio e o trajecto de inspirações e transpirações

O interesse pela música nasce em tenra idade, ainda na província de Gaza, onde nasceu, influenciado, entre outros, pelos Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley ou Luís Gonzaga. Os seus irmãos mais novos seguiram também o perfume musical. Pedro Langa integrou o Ghorwane e Milagre Langa o Grupo RM.

Nos primeiros anos de independência, Hortêncio Langa destacou-se pela participação na trilogia “Amanhecer”. Em 1980, na companhia de Arão Litsuri e João Cabaço gravou um disco “ao vivo” no festival de Neubrandenburg, na antiga República Democrática da Alemanha.

Igualmente na década de 1980, Hortêncio Langa fundou o icónico grupo Alambique, cuja música tem marcas de marrabenta, jazz blues ou rock. A sua base inicial integrava Arão Litsure, Celso Paco, Childo Tomás e Aderito Gomate.

Com uma vasta produção a solo abordando problemas do quotidiano moçambicano e amor, Hortêncio Langa explorou também as artes plásticas e literatura, forjando “Magoda” e “Luzes de Encantamento”.

Por muitos anos, foi secretário-geral da Associação de Músicos Moçambicanos.

Hortêncio Langa deixa viúva e quatro filhos, três deles também músicos, Xixel, Texito e Dário.

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