«Cada obra de arte é um instante; cada obra conseguida é um equilíbrio, uma pausa momentânea do processo, tal como ele se manifesta ao olhar atento. Se as obras de arte são respostas à sua própria pergunta, com maior razão elas próprias se tornam questões» (Adorno, 1998, p. 17).
Recorre-se sempre aos conceitos “arte moderna” e “arte contemporânea” quando se pretende negar um tempo em detrimento do outro. Se o modernismo estético é tido como aquela tentativa histórico-equacional que nega a arte como um veio que conecta a humanidade ao seu tempo, ou por outra, um empreendimento epocal que separa a obra de arte das questões mais profundas da sua existência, para dar lugar ao rigor do procedimento, é possível pensá-lo fora do capitalismo? O mesmo pode-se questionar ao pós-modernismo: é possível pensar a arte contemporânea entendida como um manifesto angustiado contra a antimimese e como também uma retoma dos valores tradicionais da arte, sem se pensar no neoliberalismo?
Se somos unânimes na ideia segundo a qual “não é a consciência do ser que determina a vida, mas, inversamente, é a vida que determina a consciência do ser”, como é que podemos ajuizar a consciência do artista contemporâneo dentro das políticas neoliberais?
O artista é um sujeito não alheio ao seu tempo histórico. E se o neoliberalismo for este monstro epocal que divide a sociedade entre credores e devedores[1], então é preciso conceber o artista contemporâneo como um sujeito de três combates: (i) aquele que ciente das fragilidades da arte moderna engaja-se para devolver a arte à praxis vital; (ii) um sujeito que busca superar e defender-se da crítica dos modernistas segundo a qual “o [contemporâneo] trivializa os seus produtos, renuncia à abstração da imagem como via de conciliação, preenchendo, em suma, as necessidades residuais de uma sociedade que não tem tempo para a [abstração]”[2] e; (iii) aquele que se protege do animal neoliberal, clamando que a arte seja a sua saída segura.
É dentro destes desafios que se pode fazer a leitura da II edição da Expo Arte “Inhambane em Focos Criativos” que hoje apresentamos.
O traço plástico que corporiza as obras desta edição, manifesta uma pintura contemporânea com um sentido proposicional e crítico; manifesta uma pintura que busca captar os resíduos históricos urbanos, as vivências sociais e a sua relação com o mar; uma pintura que evidencia as potencialidades culturais étnicas, seus objetos tradicionais e a sua relação com o mundo moderno assolado pela globalização.
Quando falamos duma pintura que capta resíduos históricos urbanos, a sua concretização pode ser bem achada na obra “Baia de Inhambane” do artista Azevedo, onde o criador através de processos visuais e plásticos capta duas realidades geográficas e duas realidades históricas conjugadas num impressionismo inusitado. A primeira realidade é continental que endossa a memória colonial, a religião católica e a sua arquitetura que é o marco central e o sorriso que recebe todo viajante que chega através da baia de Inhambane. Se considerarmos a arte como um espaço de memória, com o recurso a esta paisagem a obra sugere-nos a uma ideia de preservação e reedificação dos monumentos históricos imóveis, e de maneira particular a arquitetura colonial religiosa que não só confere um belo estético urbano, como também é um atrativo turístico.
A segunda realidade que esta obra apresenta é marítima que, à semelhança da primeira, carrega o passado e o presente subsequentes. Aqui, a vida passada e presente das humanidades mistura-se e é representada através da canoa, do barco à vela e do barco à motor mergulhados num azul do céu que simboliza a infinitude da beleza e da vida. Esta infinitude da beleza endossa-se mais no jogo visual do qual o artista se socorre, que não só expressa a paixão e amor que a cidade suscita aos seus visitantes, como também exprime, no plano artístico, um impressionismo cinematográfico consequente da mistura da luzência noturna urbana e do reflexo das corres sobre as águas cristalinas. Este impressionismo possibilita-nos entender a relação umbilical existente entre a pintura e o cinema.
[1] Sloterdijk (2008)
[2] Burger (1993)
A obra “Baia de Inhambane”, concretiza-se na obra “Mabulo” onde se matiza a relação intrínseca existente entre o mar e a mulher. Há, sem dúvida, uma relação simbólica entre o corpo feminino e o mar que chega a simbolizar a dinâmica da vida e o lugar de nascimento (seu ethos). As cores claras, mormente, o vermelho e o amarelo que se misturam simultaneamente chegando a adquirir tonalidades atraentes e as roupas que as mulheres entrincadas no trabalho e nos mabulos (blusas de alsas) representam o verão que é o momento típico que não só atrai os turistas, bem como atrai os pescadores ao mar trazendo felicidade para tantas familias que dependem do mar para o seu sustento. O rescurso às riquezas do mar e a imagem da mulher é também recorrente nas obras do artista Macicame, onde os recursos marítimos e o corpo feminino cruzam-se numa perspetiva erótica traduzindo significados de paz, de amor a biodiversiade aquática e dos desafios que a mulher enfrenta no seu dia a dia mesmo dentro de tantas adversidades impostas pela pandemia da Covid-19.
Reflitamos, agora, em torno da obra de Pedro Morana. Uma mulher em marcha vestida de branco embalando um bebê nos seus braços; um homem descalço, entrapilhado, com o rosto curvado e hospedado num chapéu de cabedal sentado numa caixa lacrada de ferro; uma guitarra ao seu lado esquerdo, em sua volta um monte de sapatos deformados e em sua frente uma perna esticada de meia branca e calças pretas e sapato preto que se apoia na perna do homem que o engraxa. Que isto tudo nos representa? Lembre-se que o ofício de sapateiro e de engraxador de sapatos é uma profissão urbana destinada aos pobres ao serviço da classe média e/ou alta; esta é a condição de muitos homens na cidade; todavia a guitarra que se ladeia ao homem traz uma outra perspetiva que chega a denunciar a condição penosa pela qual muitos artistas passam; ou seja, passado muito tempo na carreira artística, os mesmos caiem na trapilhice e terminam na rua passando despercebidos por todos e até pelas elites, como se nos apresenta o saciado cujo sapato é engraxado nesta obra. Todavia, mesmo perante a toda negação do mundo, o artista acha o sossego e paz nos olhos amáveis da mulher que carrega a posteridade nos seus braços.
Chaná de Sá é um artista da nossa praça cujo traço plástico é inegavelmente singular e peculiar. A interpretação das suas obras gera inconsensos nos seus apreciadores. Todavia, como nos atesta Adorno, toda obra de arte é um instante, é um equilíbrio; as obras de arte são respostas das suas próprias questões sobre as realidades sociais das quais elas são produto. Neste quesito, a obra de Chaná de Sá, é este espaço-instante de questionamento e resposta que reflecte o grau de inconformismo do artisra em relação a vida. Num primeiro instante visual, a obra sugere-nos uma casa com um teto sombrio, um berço branco e vazio mergulhado em cores frias e claras; no seu exterior há traços irregulares que por vezes se confundem com itinerários acidentados com uma textura visual rugosa; alguns traços por vezes nos transmitem a ideia de amimais ou insectos e também, a sua direita junto a parede da casa figuras informes com aspeto humano; a casa está mergulhada em um amarelo encarnado e um vermelho amarelejado representando o declínio da vida que se consubstancia no berço que não alberga nenhum nado, no interior da casa que não tem moradores; as cores sombrias que envolvem o teto estão associadas às trevas primordiais, à indiferença original, à passividade absoluta e morte. Todavia, o branco que delimita o berço no interior da casa remete-nos à ideia do renascimento e pureza. Como se fez menção nas linhas anteriores, é impossível e inconsensual a interpretação genérica da obra, cabendo a cada presente e leitor concluir o significado da mesma.
Gosto ainda mais de reflectir em torno da obra “A Vida” do artista Azivedo que por meio da representação junta a pintura e a cerâmica. Esta obra que se nos apresenta com maior esmero técnico e visual, endossa em primeira instância a nossa cultura “olaria” que tem maior expressão em Mutamba. Há nesta obra uma manifesta resistência cultural em relação a modernidade e a globalidade. Refira-se que, devido a globalização, troca de produtos culturais, alguns objectos de olaria entram em desuso nos nossos lares, mormente, a ânfora, a panela de barro, entre outros. Dada a importância cultural que estes objectos representam, o artista, por meio de cores (azul, vermelho e amarelo) denuncia a sua tendência de extinsão e manifesta um sentimento de saudosismo e resistência à pressão cultural das civilizações dos outros povos, sobretudo o ocidente. Sumariamente, esta obra, como o artista nos sugere, representa a vida das comunidades de Inhambane; é nestes objectos onde se depositam as tradições mais profundas das nossas comunidades; eles transportam o tempo e a evolução das tradições do povo, pelo que a sua extinsão periga a história cultural das comunidades de Inhambane.
Para terminar, gostaria que chamasse à reflexao de todos os presentes nesta exposição e aos demais sobre a seguinte questão: para que nos orgulharmos de sermos a capital turística e de termos artistas plásticos talentosos quando nada ou pouco fazemos para manifestarmos o devido valor? Não vale nada realizarmos anual ou bienalmente exposições de artes plásticas quando nós mesmos, os naturais de Inhambane, não compramos as obras de arte. Ou seja, nós temos que ser os primeiros consumidores das nossas artes.
Estiolo-me bastante, enquanto crítico das artes e amante das artes, quando percorro as instituições de Estado e/ou privadas, sobretudo os restaurantes, as pousadas, os hoteis e tantas instâncias turísticas e nelas não poder ver sequer uma obra de arte exposta; doi-me ainda nos nervos quando percorro as paredes brancas dos corredores e departamentos da Direcção Provincial de Cultura e Turismo e nelas não ver sequer uma obra de arte que dignifica a instituição, enquanto aquela entidade que tutela o turismo, as artes e cultura.
É urgente que as instituições do Estado sejam as primeiras e maiores colecionadoras de obras de arte; é comprando as obras de arte que se pode eternalizar e dignificar a produção plástica da nossa província e consequentemente melhorar a vida dos artistas que correm o risco de cairem na rua, como nos alude a obra do artista Pedro Morana; é coleccionando as abras de arte que permitirá ao governo provincial, que no futuro tenhamos uma galeria pública que funcionará como depositório das melhores obras dos nossos génios plásticos.
Nota: Texto produzido e apresentado em 2024 em contextos da II Edição da Expo Arte "Inhambane em Focus Criativos" na Casa Provincial de Cultura (CPC) em Inhambane.
Harani João Mahalambe
Harani João Mahalambe é Pesquisador, Mestrando em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade pela Universidade Federal de Amazonas (UFAM). Brasil. Graduado em Ensino do Português pela UniSave - Maxixe. Moçambique