RESUMO
Este artigo tem como objectivo analisar o papel de Adam Mickiewicz e Juliusz Słowacki, na literatura polaca, e de José Craveirinha e Noémia de Sousa, na literatura moçambicana, como criadores de imaginários literários associados à construção da identidade, da memória e da consciência nacional. O argumento central é que, em contextos marcados pela dominação política, perda ou restrição da soberania e necessidade de afirmação colectiva, a literatura pode ultrapassar a dimensão estética, tornando-se espaço de elaboração simbólica da nação e de criação de imaginários alternativos à ordem dominante. Parte-se da premissa de que os escritores não apenas representam realidades históricas, mas também participam na sua interpretação e na construção de novos horizontes de pertença, memória e futuro. A partir de uma abordagem qualitativa, comparativa e interdisciplinar, o artigo estabelece um diálogo entre os contextos polaco e moçambicano, considerando as particularidades históricas que aproximam e distinguem as obras dos quatro autores. Analisa-se a relação entre literatura, identidade, memória histórica, resistência e consciência colectiva, procurando compreender como contribuíram para imaginar a nação em contextos de profundas transformações políticas. Conclui-se que, apesar das diferenças históricas, geográficas e temporais, os quatro autores produziram imaginários literários capazes de preservar memórias, questionar formas de dominação e projectar uma comunidade política e cultural imaginada. A comparação evidencia, assim, a literatura como forma de intervenção histórica e produção de consciência colectiva, na qual o escritor participa na construção simbólica da nação.
PALAVRAS-CHAVE: Adam Mickiewicz; Juliusz Słowacki; José Craveirinha; Noémia de Sousa; Imaginário Literário; Identidade; Memória; Nação.
STRESZCZENIE
Artykuł ma na celu ukazanie i analizę roli Adama Mickiewicza i Juliusza Słowackiego w literaturze polskiej oraz José Craveirinhi i Noémii de Sousy w literaturze mozambickiej jako twórców literackich wyobrażeń związanych z kształtowaniem tożsamości, pamięci i świadomości narodowej. Główna teza artykułu zakłada, że w warunkach naznaczonych dominacją polityczną, utratą lub ograniczeniem suwerenności oraz potrzebą zbiorowej afirmacji literatura może wykraczać poza swoją funkcję estetyczną, stając się przestrzenią symbolicznego konstruowania wspólnoty narodowej i kreowania alternatywnych wobec dominującego porządku sposobów wyobrażania jej przeszłości, teraźniejszości i przyszłości. Punktem wyjścia jest założenie, że pisarze nie tylko odzwierciedlają rzeczywistość historyczną, lecz również aktywnie uczestniczą w jej interpretowaniu oraz w kształtowaniu nowych horyzontów przynależności, pamięci i wspólnotowej przyszłości.
Wykorzystując metodologię jakościową, porównawczą i interdyscyplinarną, artykuł podejmuje próbę zestawienia kontekstów polskiego i mozambickiego, uwzględniając zarówno historyczne podobieństwa, jak i różnice, które determinują specyfikę twórczości omawianych autorów. Analizie poddano wzajemne zależności między literaturą, tożsamością, pamięcią historyczną, oporem wobec dominacji oraz świadomością zbiorową, ze szczególnym uwzględnieniem sposobów, w jakie literatura uczestniczyła w procesie wyobrażania i symbolicznego konstruowania narodu w okresach głębokich przemian politycznych.
Przeprowadzona analiza prowadzi do wniosku, że mimo zasadniczych różnic historycznych, geograficznych i chronologicznych twórczość wszystkich czterech autorów przyczyniła się do powstania literackich imaginarium zdolnych do zachowywania i przekazywania pamięci zbiorowej, podważania istniejących form dominacji oraz projektowania wyobrażonej wspólnoty politycznej i kulturowej. Perspektywa porównawcza pozwala tym samym postrzegać literaturę nie tylko jako dziedzinę ekspresji artystycznej, lecz również jako formę uczestnictwa w procesie historycznym i narzędzie kształtowania świadomości zbiorowej, w którym pisarz odgrywa istotną rolę w symbolicznym konstruowaniu narodu.
SŁOWA KLUCZOWE: Adam Mickiewicz; Juliusz Słowacki; José Craveirinha; Noémia de Sousa; imaginarium literackie; tożsamość; pamięć; naród.
INTRODUÇÃO
Este trabalho põe em pauta a análise do papel de Adam Mickiewicz e Juliusz Słowacki, na literatura polaca, e de José Craveirinha e Noémia de Sousa, na literatura moçambicana, como criadores de imaginários literários na construção da identidade, da memória histórica e da consciência colectiva. O seu argumento central é que, em contextos históricos marcados pela dominação política, pela restrição da soberania e pela necessidade de afirmação de uma identidade colectiva, a literatura pode assumir uma função que ultrapassa a dimensão estética, constituindo-se como espaço de preservação da memória, de representação da realidade e de criação de imaginários sobre a comunidade, a nação e o futuro. A hipótese explicativa para esta problemática é que, tanto no contexto polaco como no moçambicano, a criação literária de Mickiewicz, Słowacki, Craveirinha e Noémia de Sousa participou na elaboração de imaginários colectivos capazes de responder às circunstâncias históricas dos seus respectivos povos. Embora separados por diferentes períodos, geografias e experiências políticas, estes escritores recorreram à literatura para interpretar a realidade, recuperar referências históricas e culturais, questionar formas de dominação e projectar uma ideia de comunidade fundada na memória, na identidade e na esperança de transformação. Neste sentido, o imaginário literário não é compreendido apenas como uma construção ficcional, mas como um campo simbólico através do qual uma sociedade se pensa, se representa e imagina a si própria. Para efeito, a experiência histórica polaca e a experiência colonial moçambicana constituem dois contextos distintos, mas susceptíveis de estabelecer um diálogo comparativo no domínio da literatura e da construção de imaginários.
No caso polaco, a literatura adquiriu uma particular relevância na preservação da identidade nacional em períodos de perda da soberania e de dominação estrangeira, particularmente durante as partições da Polónia. É neste contexto que a obra de Adam Mickiewicz e Juliusz Słowacki se afirma como uma das expressões fundamentais do Romantismo polaco, associando poesia, memória histórica, exílio, identidade e ideia de nação. A literatura tornou-se, assim, um dos espaços privilegiados de preservação simbólica da comunidade nacional quando a existência política do Estado polaco se encontrava profundamente comprometida. Em Moçambique, embora o contexto histórico seja diferente, a literatura também se desenvolveu em estreita relação com os processos de dominação colonial, de formação da consciência nacional e de procura de novas formas de representação do sujeito moçambicano. José Craveirinha e Noémia de Sousa ocupam, neste processo, uma posição particularmente significativa. Através da poesia, ambos contribuíram para deslocar o centro do discurso literário colonial, introduzindo vozes, experiências, memórias e referências culturais ligadas à realidade moçambicana. A sua produção literária tornou-se, deste modo, um espaço de afirmação identitária, denúncia da opressão colonial e imaginação de uma comunidade que procurava reconhecer-se para além das representações impostas pelo poder colonial. A aproximação entre estes quatro autores não pretende estabelecer uma equivalência histórica entre a experiência polaca e a experiência moçambicana, nem reduzir as especificidades de cada contexto a uma única experiência de resistência.
A comparação permite, portanto, observar de que modo o escritor pode actuar como mediador entre história e imaginação, entre memória e identidade, e entre a realidade vivida e a realidade que uma comunidade deseja construir. A construção metodológica que norteia este artigo comporta uma abordagem qualitativa, comparativa, histórica, bibliográfica e hermenêutica, articulando os estudos literários com a história e a reflexão sobre identidade, memória e imaginário nacional. A análise incide sobre a produção literária e o contexto histórico de Adam Mickiewicz, Juliusz Słowacki, José Craveirinha e Noémia de Sousa, procurando estabelecer relações entre as suas obras e os processos históricos que condicionaram a formação dos imaginários colectivos nos contextos polaco e moçambicano. A abordagem comparativa não procura apenas identificar semelhanças temáticas, mas compreender as diferentes formas através das quais a literatura transforma a experiência histórica em representação simbólica. Este artigo está dividido em três partes, além desta introdução e da conclusão. Na primeira, apresenta-se uma contextualização histórica e literária da experiência polaca, com particular atenção ao Romantismo e ao papel de Adam Mickiewicz e Juliusz Słowacki na construção do imaginário nacional polaco. Na segunda, aborda-se o contexto colonial e a formação da literatura moçambicana, destacando o percurso de José Craveirinha e Noémia de Sousa e a sua contribuição para a construção de uma consciência identitária e nacional. Por fim, na terceira parte, estabelece-se uma análise comparativa dos quatro autores enquanto criadores de imaginários literários, procurando compreender as aproximações e diferenças entre as suas obras e o modo como literatura, memória, identidade e história se articulam na construção simbólica da nação.
ADAM MICKIEWICZ E JULIUSZ SŁOWACKI: LITERATURA, MEMÓRIA E CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO NACIONAL POLACO
Perda da soberania, Romantismo e emergência do imaginário nacional polaco
Para compreender o papel de Adam Mickiewicz e Juliusz Słowacki na construção do imaginário nacional polaco, importa considerar as condições históricas em que a sua produção se desenvolveu. A literatura polaca do século XIX formou-se num contexto de perda da soberania, divisão territorial e necessidade de preservar uma identidade colectiva privada de Estado próprio. Esta condição conferiu particular importância à memória histórica, à língua, à cultura, à religião e às tradições como elementos de continuidade da comunidade nacional. A literatura passou, assim, a relacionar-se com uma experiência em que a existência da nação precisava de ser pensada para além das instituições políticas. No Romantismo, a criação literária adquiriu uma dimensão particularmente ligada à memória, à identidade, à pátria e à projecção do futuro, tornando Mickiewicz e Słowacki não apenas representantes de uma corrente estética, mas também participantes na elaboração simbólica da comunidade nacional (MIŁOSZ, 1983; DAVIES, 2005).
A formação do imaginário nacional polaco inscreve-se numa longa continuidade histórica. Desde a formação do Estado polaco no século X, associada ao reinado de Mieszko I, os territórios polacos foram marcados por guerras, fragmentações e disputas pela soberania, envolvendo diferentes potências vizinhas, entre as quais entre as quais o Sacro Império Romano-Germânico, o Estado moscovita e, posteriormente, o Império Russo (DAVIES, 2005; NOWAK, 2014a). Esta experiência contribuiu para consolidar uma consciência política associada à defesa da autonomia e da soberania. Um momento fundamental foi a constituição da Rzeczpospolita Obojga Narodów, ou República das Duas Nações, pela União de Lublin de 1569, que uniu o Reino da Polónia e o Grão-Ducado da Lituânia numa estrutura política comum (DAVIES, 2005; ŁUKOWSKI; ZAWADZKI, 2019). Tratava-se de uma entidade territorial, política e culturalmente diversa, que reunia populações de diferentes origens, línguas e religiões. Embora não correspondesse ao moderno Estado-nação, tornou-se posteriormente uma referência da memória política polaca, enquanto representação de uma comunidade política soberana anterior às partilhas (DAVIES, 2005; ŁUKOWSKI; ZAWADZKI, 2019).
A ruptura dessa continuidade ocorreu com as três partilhas da Rzeczpospolita, em 1772, 1793 e 1795, realizadas pela Rússia, Prússia e Áustria. A Terceira Partilha eliminou definitivamente o Estado polaco do mapa político europeu (DAVIES, 2005; NOWAK, 2014b). As populações dos antigos territórios da Rzeczpospolita passaram a viver sob três administrações estrangeiras, submetidas a diferentes sistemas políticos, jurídicos e culturais e privadas de um Estado soberano. Produziu-se, assim, uma condição histórica particular: a comunidade nacional permanecia, mas a sua existência política fora interrompida. Por isso, a preservação da memória histórica, da língua, da religião, das tradições e das referências culturais adquiriu uma função que ultrapassava o domínio estritamente cultural, contribuindo para manter a consciência de pertença colectiva para além das fronteiras impostas pelas potências ocupantes (JANION, 2000). A identidade nacional sustentava-se, deste modo, também em formas simbólicas de continuidade histórica, nas quais a memória das gerações anteriores e a tradição cultural desempenhavam um papel fundamental (JANION, 2000).
É neste contexto que o Romantismo polaco assume particular relevância. Desenvolvido nas primeiras décadas do século XIX, estabeleceu uma relação estreita com a história, a memória, a tradição, a religião, a pátria e o sofrimento colectivo. Como observaram Maria Janion e Maria Żmigrodzka, o historicismo constituiu um dos fundamentos do pensamento romântico polaco, na medida em que a história era concebida não apenas como objecto de recordação, mas como uma dimensão activa do presente e uma referência para a compreensão do futuro (JANION; ŻMIGRODZKA, 1978). A língua polaca tornou-se igualmente um espaço de preservação da memória e da continuidade cultural. A literatura podia conservar imagens da pátria, recuperar acontecimentos históricos, transmitir valores e representar uma comunidade nacional privada de instituições estatais próprias. A figura do poeta adquiriu, por conseguinte, uma dimensão que ultrapassava a função estética: através da linguagem literária, podia interpretar a experiência histórica e conferir-lhe significado colectivo. É neste quadro que se inscrevem Mickiewicz e Słowacki, cujas obras se desenvolveram sob o impacto da perda da soberania, da memória das insurreições e da experiência do exílio (MIŁOSZ, 1983).
A tentativa de recuperar a independência manifestou-se também através de insurreições contra o domínio estrangeiro, entre as quais se destacam a Insurreição de Novembro de 1830–1831 e a Insurreição de Janeiro de 1863–1864, ambas dirigidas contra o Império Russo. A primeira teve início em Varsóvia, em Novembro de 1830, envolvendo inicialmente jovens oficiais e estudantes e transformando-se numa revolta contra o domínio russo. Derrotada pelo exército imperial em 1831, foi seguida por forte repressão e reforço do controlo russo (ZAJEWSKI, 2003). A Insurreição de Janeiro, iniciada em 1863, constituiu uma nova tentativa de resistência, desenvolvida sobretudo através de guerra de guerrilha e igualmente derrotada. Seguiram-se execuções, deportações para a Sibéria, confiscos de propriedades e medidas de integração dos territórios polacos no Império Russo (KIENIEWICZ, 1972). Apesar das diferenças, ambas as insurreições integram uma história de resistência à perda da soberania e contribuíram para intensificar a memória do sofrimento e da luta pela independência (LESLIE, 2009).
A derrota da Insurreição de Novembro esteve directamente relacionada com a Grande Emigração (Wielka Emigracja), que levou milhares de polacos – militares, políticos, intelectuais, artistas e escritores – a abandonar os territórios submetidos às potências ocupantes, procurando refúgio sobretudo em França. Paris tornou-se um importante centro político e intelectual da emigração polaca (ZDRADA, 1987; WITKOWSKA, 1997). Mickiewicz encontrava-se já fora do território polaco quando a insurreição começou: depois de deixar o Império Russo em 1829, encontrava-se em viagem pela Europa e tentou posteriormente regressar, sem sucesso, aos territórios polacos (PIGOŃ, 1988). Słowacki deixou Varsóvia no início de 1831, seguindo primeiro para Dresden como mensageiro diplomático do Governo Nacional, e estabeleceu-se em Paris em Setembro de 1831 (SAWRYMOWICZ, 1960). O exílio tornou-se, assim, uma experiência decisiva para ambos, intensificando a relação entre memória, perda e imaginação. A Polónia passou a ser simultaneamente território ausente, memória histórica e comunidade reconstruída pela literatura. A Grande Emigração constituiu, portanto, não apenas consequência da derrota militar, mas também um espaço de produção intelectual no qual a memória da pátria e a esperança da independência foram transformadas em matéria literária e em formas de construção do imaginário nacional (ZDRADA, 1987; WITKOWSKA, 1997).
A ausência de soberania e a experiência do exílio aprofundaram a relação entre literatura, memória e identidade. Recordar a Polónia significava preservar uma comunidade politicamente fragmentada e submetida a diferentes poderes. A literatura tornou-se um dos espaços em que essa comunidade podia continuar a existir simbolicamente através da poesia, da narrativa, da evocação histórica e da reconstrução imaginária do território. A pátria podia ser reelaborada pela linguagem e pela memória, enquanto o passado servia para interpretar o presente e projectar um futuro nacional. Este quadro histórico começou a ser profundamente transformado em 1918, quando a Polónia recuperou a independência no contexto da Primeira Guerra Mundial e da desagregação dos impérios que haviam participado nas partilhas (DAVIES, 2005; NOWAK, 2014b). O restabelecimento do Estado conferiu nova dimensão às representações literárias produzidas durante o período de dominação: aquilo que fora preservado como memória, desejo e projecto de futuro pôde voltar a adquirir existência política. É nesta articulação entre perda da soberania, memória histórica, exílio e imaginação do futuro que se encontra uma das bases fundamentais do imaginário nacional polaco e que deve ser compreendida a intervenção literária de Mickiewicz e Słowacki.
Neste contexto, a noção de “comunidade imaginada”, desenvolvida por Benedict Anderson (2008), permite compreender como uma comunidade nacional pode manter uma representação de pertença mesmo privada de soberania política. No caso polaco, a literatura desempenhou um papel particular nesse processo, criando imagens partilhadas da pátria, recuperando memórias históricas e estabelecendo referências culturais comuns entre populações divididas pelos três poderes ocupantes. Coloca-se, assim, uma questão central para a análise de Mickiewicz e Słowacki: como podia a literatura permitir imaginar e preservar uma comunidade nacional quando esta não possuía o seu próprio Estado soberano? A resposta será desenvolvida através da análise das suas obras, procurando compreender como a poesia romântica transformou a memória, a experiência do exílio e a ideia de pátria em elementos de construção do imaginário nacional polaco.
Adam Mickiewicz: memória histórica e experiência do exílio
No contexto histórico apresentado, a obra de Adam Mickiewicz ocupa uma posição central na formação do imaginário nacional polaco pela forma como articula memória histórica, experiência do exílio, representação da pátria e construção simbólica da comunidade (JANION; ŻMIGRODZKA, 1978). A sua produção não pode ser separada da perda da soberania e da distância em relação aos territórios polacos, mas também não deve ser reduzida a uma simples expressão desses acontecimentos. Através da criação poética, Mickiewicz transforma a experiência histórica em memória literária, conferindo ao passado uma função activa na preservação da identidade colectiva. A literatura não se limita, assim, a recordar uma realidade perdida: reorganiza-a simbolicamente e torna-a presente através da linguagem.
Esta relação manifesta-se particularmente em Dziady (Os Antepassados), sobretudo na terceira parte, escrita em Dresden em 1832 e publicada em Paris no mesmo ano, no contexto das experiências represyjnych que Mickiewicz e jego pokolenie wiązały z prześladowaniami młodzieży wileńskiej (MICKIEWICZ, 1832/1974; ZAWADZKA, 2022). A acção decorre num contexto de repressão exercida pelas autoridades russas sobre os jovens polacos, incluindo prisões, deportações e perseguições (ZAWADZKA, 2022). O protagonista, inicialmente apresentado como Gustaw, transforma-se em Konrad, numa passagem simbólica da experiência individual para a colectiva. Enquanto Gustaw representa sobretudo o sofrimento amoroso e a crise do indivíduo, Konrad assume o sofrimento da comunidade nacional como parte da sua própria identidade. A “morte” simbólica de Gustaw e o nascimento de Konrad significam, portanto, o abandono do drama pessoal em favor do destino da nação. Esta transformação culmina na Improvisação (Improwizacja), quando Konrad se dirige a Deus e reivindica o direito de influenciar o destino da nação. A identificação com a comunidade atinge o seu ponto máximo quando afirma: «Eu e a pátria somos um só. Chamo-me Milhões / pois por milhões amo e sofro os tormentos.» (MICKIEWICZ, 2025, p.121, trad. própria). O “eu” individual transforma-se, assim, em voz de muitos, fazendo de Konrad uma representação simbólica da nação submetida à dominação e privada de soberania.
Esta identificação não se limita, contudo, à representação de uma colectividade presente. O discurso de Konrad amplia a comunidade para além da experiência individual e da geração contemporânea, abrangendo a continuidade histórica da nação:
«Mas sou homem, e lá, na terra, ficou o meu corpo;
amei lá, na pátria, e nela ficou meu coração.
Mas este amor que trago comigo pelo mundo
não repousou num homem, nem num só coração,
como um insecto que pousa sobre a rosa por um segundo,
nem numa só família, nem numa só geração.
Eu amo toda a nação! – tomei-a nos meus braços,
todas as gerações, passadas e futuras;
estreitei-as contra o peito, em ternos abraços,
como amigo, amante, esposo, como pai nas horas mais duras.
Quero erguê-la, fazê-la feliz,
quero com ela maravilhar o mundo inteiro;
quero vê-la crescer, livre, como sempre quis,
e levá-la ao futuro, de coração inteiro (…)» (MICKIEWICZ, 2025, p.117-118, trad.própria)
A afirmação «Eu amo toda a nação!» torna-se particularmente significativa quando imediatamente associada às «gerações, passadas e futuras». A nação aparece aqui não apenas como uma comunidade de indivíduos unidos por uma experiência presente, mas como uma continuidade que articula memória, herança e futuro. Konrad assume simbolicamente uma relação com a comunidade que ultrapassa os limites da sua própria existência: abraça os que o precederam e os que ainda virão, procurando simultaneamente preservar a continuidade da nação e contribuir para a sua transformação (MASŁOWSKI, 1978).
A passagem da experiência individual para uma experiência colectiva constitui, assim, um dos mecanismos através dos quais a poesia pode transformar uma voz particular numa voz capaz de representar uma comunidade mais ampla. A associação entre o “eu” poético, a memória das gerações e a ideia de continuidade comunitária estabelece, além disso, uma primeira aproximação à questão que será retomada na análise comparativa: de que modo a experiência individual pode ser transformada em expressão de uma comunidade historicamente submetida à dominação.
A importância de Dziady III resulta precisamente desta transformação de acontecimentos históricos em representação simbólica. A repressão, a prisão, a deportação e o exílio tornam-se experiências através das quais a comunidade nacional pode reconhecer a sua própria história. O destino de Konrad ultrapassa a dimensão biográfica e adquire significado colectivo: a literatura permite que uma comunidade privada de soberania se reconheça num sujeito literário que dá forma ao seu sofrimento e preserva a memória da experiência histórica. A dimensão colectiva da personagem não elimina, portanto, a sua singularidade; pelo contrário, é precisamente através da voz individual de Konrad que a experiência histórica de uma comunidade encontra expressão literária (GÓRSKI, 1977).
Uma configuração diferente dessa memória encontra-se em Pan Tadeusz (Senhor Tadeu), publicado em 1834. Considerado a epopeia nacional polaca, o poema ocupa até hoje um lugar central na cultura e na educação polacas, sendo a sua Inwokacja (Invocação) tradicionalmente estudada e aprendida de memória pelos alunos nas escolas. A obra transporta o leitor para os territórios do antigo Grão-Ducado da Lituânia, em 1811–1812, reconstruindo o mundo social e cultural anterior à experiência do exílio. O regresso de Tadeusz à propriedade familiar, as relações entre as famílias Soplica e Horeszko, o conflito em torno do castelo, as relações amorosas e os acontecimentos políticos ligados à esperança de Napoleão libertar os territórios polacos permitem construir uma imagem ampla da comunidade, articulando vida quotidiana, costumes, paisagem e memória histórica.
É precisamente essa reconstrução que confere a Pan Tadeusz particular importância para a memória nacional. Casas, campos, florestas, costumes, relações familiares e tradições deixam de ser simples elementos narrativos e passam a constituir um espaço de memória e pertença. A célebre abertura:
«Lituânia! Pátria minha! És como a saúde
só quem te perdeu saberá quanto vales, quanto é preciso estimar
pois só quem te perdeu conhece a dor de te recordar.» (MICKIEWICZ, 2023, p.5, trad. própria).
estabelece imediatamente a relação entre território, pátria e perda. A pátria evocada não é apenas uma entidade política, mas um espaço afectivo e cultural reconstruído pela linguagem. A evocação dos campos, bosques e espaços da infância transforma a distância em memória e a memória em representação literária. O território ausente passa, assim, a existir como espaço imaginado, recordado e partilhado através da linguagem (WITKOWSKA, 1996; PIGOŃ, 1934). A relação entre nomeação do espaço, memória e pertença constitui aqui uma questão particularmente relevante: nomear literariamente um território não significa apenas descrevê-lo, mas também inscrevê-lo numa memória colectiva.
Esta reconstrução do passado é, contudo, selectiva e parcialmente idealizada. O mundo representado por Mickiewicz não constitui uma reprodução documental da realidade histórica, mas uma construção marcada pela nostalgia e pela experiência do exílio (WITKOWSKA, 1996). A idealização possui, porém, uma função importante: preserva costumes, valores, paisagens e formas de vida como elementos de uma memória comum, permitindo reconstruir simbolicamente a continuidade da comunidade (PIGOŃ, 1934; WITKOWSKA, 1996). Neste sentido, reconstruir literariamente o território perdido significa preservar a memória da comunidade. A representação do espaço ultrapassa a função descritiva e participa na construção da identidade colectiva. Esta questão poderá ser retomada posteriormente, na análise comparativa com José Craveirinha, particularmente a propósito da utilização poética dos topónimos em Hino à minha terra.
A experiência do exílio constitui, deste modo, uma dimensão fundamental da obra de Mickiewicz. Depois de deixar os territórios polacos, o poeta passou por diferentes lugares da Europa e estabeleceu-se posteriormente em Paris, onde participou activamente na vida intelectual da Grande Emigração (Wielka Emigracja). O exílio não significou apenas deslocação geográfica, mas uma ruptura com o espaço de origem, compensada pela memória e pela criação literária. Essa relação entre distância e recordação manifesta-se claramente nos Sonetos de Crimeia, publicados em 1826. No soneto “Pielgrzym” (O peregrino), o sujeito poético encontra-se perante uma paisagem estrangeira que, apesar da sua beleza, não consegue substituir a terra natal: «Lituânia! Mais agradavelmente cantavam para mim as tuas florestas murmurantes / do que os rouxinóis de Bajdar» (MICKIEWICZ, 1929, p. 294). A comparação estabelece uma hierarquia afectiva entre o espaço presente e o espaço perdido: a paisagem estrangeira pode ser admirada, mas não substitui a pátria.
Esta transformação da distância em memória torna-se ainda mais expressiva em “Stepy Akermańskie” (Estepes de Akerman), primeiro soneto do ciclo. O sujeito encontra-se distante da Lituânia e atravessa uma paisagem descrita como um enorme “oceano” de vegetação. No silêncio, porém, a percepção da paisagem exterior é interrompida pela memória da pátria: «Em tal silêncio aguço tanto o ouvido / que ouviria a voz da Lituânia – avancemos, ninguém chama!» (MICKIEWICZ, 1929, p. 281). A Lituânia não está fisicamente presente, mas torna-se presente através da imaginação e da memória. A geografia exterior – a Crimeia, o Dniestre e as estepes – é atravessada pela geografia interior da recordação. O território real e o território recordado coexistem, permitindo compreender o território imaginado como reconstrução simbólica do espaço de pertença. A ideia de perda é fundamental: a pátria é valorizada precisamente porque foi perdida e porque o sujeito se encontra afastado dela. A literatura reconstrói, assim, aquilo que a experiência histórica tornou inacessível. O território passa a existir não apenas como espaço físico, mas como território imaginado, constituído por paisagem, língua, costumes, lembranças e afectos.
A memória e o exílio convergem, portanto, numa mesma operação literária. Em Dziady III, a experiência da repressão e do sofrimento é transformada em representação colectiva através de Konrad; em Pan Tadeusz, a pátria perdida é reconstruída através da paisagem, dos costumes e da memória; nos Sonetos de Crimeia, a distância geográfica intensifica a presença interior da terra natal. Em todos estes casos, a literatura permite conservar aquilo que a perda da soberania e o exílio interromperam no plano político. A experiência do exílio não deve, por isso, ser entendida apenas como tema biográfico, mas como condição de produção de uma determinada forma de memória: a distância permite transformar a pátria num espaço literariamente reconstruído e partilhável, no qual uma comunidade dispersa pode reconhecer referências comuns. A memória revela-se, assim, não apenas como recuperação do passado, mas como uma prática de preservação da pertença colectiva. A sua relação com o território, a identidade e a continuidade de uma comunidade constitui uma questão que será desenvolvida posteriormente na análise comparativa.
Juliusz Słowacki: história, exílio e imaginação do futuro nacional
A obra de Juliusz Słowacki ocupa um lugar central na formação do imaginário nacional polaco, mas a sua estratégia literária distingue-se da de Adam Mickiewicz. Se em Mickiewicz assumem particular importância a memória, o território perdido e a reconstrução da comunidade, em Słowacki a história nacional é frequentemente apresentada como experiência de sofrimento que exige transformação e projecção no futuro (KLEINER, 1999). A derrota da Insurreição de Novembro, a perda da soberania e a experiência do exílio constituem pontos de referência fundamentais da sua produção, mas o poeta não se limita a recordar o passado. Interpreta-o, questiona as suas causas e procura atribuir-lhe um sentido capaz de orientar a comunidade em direcção a um futuro diferente. A história torna-se, assim, não apenas memória, mas também matéria de reflexão sobre a possibilidade de regeneração nacional (JANION, ŻMIGRODZKA, 1978).
Esta perspectiva manifesta-se de forma particularmente clara em Kordian, publicado em 1834. O drama retoma a experiência da Insurreição de Novembro e coloca no centro da narrativa um jovem que procura compreender o seu lugar perante a situação política da Polónia. No início, Kordian aparece dominado pela crise individual, pelo desencanto e pela incapacidade de encontrar um sentido para a própria existência. A viagem pela Europa e, sobretudo, o monólogo no Monte Branco representam uma transformação decisiva: o protagonista abandona progressivamente a perspectiva puramente individual e procura encontrar uma missão histórica. No ponto culminante desse processo, identifica a Polónia com a figura de Winkelried, o herói suíço que se sacrificou para abrir caminho ao seu povo:
«Winkelried juntou ao peito as lanças dos inimigos;
Povos! Winkelried renasceu!
A Polónia é Winkelried entre as nações!» (SŁOWACKI, 1969, p. 472)
A fórmula significa que a Polónia deve transformar o seu sofrimento em acção e sacrifício, assumindo um papel activo na história. A passagem da experiência individual para uma reflexão sobre o destino colectivo aproxima, neste sentido, a poesia de Słowacki de uma concepção da literatura como espaço de elaboração de experiências históricas partilhadas. Não se trata, contudo, de eliminar a dimensão individual da voz poética, mas de fazer dela um ponto de acesso a problemas que ultrapassam o sujeito. Esta relação entre voz individual, experiência histórica e representação da comunidade será retomada na parte comparativa do artigo.
A ideia de transformação nacional é igualmente evidente em Grób Agamemnona (O Túmulo de Agamémnon), escrito no contexto da viagem de Słowacki à Grécia e publicado posteriormente (SŁOWACKI, 2001, p.181-187). O poeta utiliza a referência à Antiguidade para confrontar a história polaca com modelos de heroísmo, força política e sacrifício. A reflexão sobre a derrota nacional transforma-se numa crítica das fraquezas da própria comunidade. Ao dirigir-se directamente à Polónia, afirma: «Ó Polónia! Enquanto mantiveres a tua alma angelical / aprisionada num crânio grosseiro» (Ibidem) sugerindo que a recuperação da liberdade exige uma transformação interior e colectiva. Pouco depois, a imagem da Polónia como «serva de outrem» (Ibidem) explicita a condição de dependência política. O passado não é, portanto, idealizado de forma incondicional: Słowacki procura identificar aquilo que, dentro da própria sociedade, contribuiu para a fraqueza nacional. A crítica da própria comunidade é igualmente significativa porque mostra que o imaginário nacional não se constrói apenas através da celebração de uma identidade preexistente. Pode também resultar de um confronto crítico com o passado, com as suas derrotas e contradições.
Esta dimensão crítica diferencia Słowacki de uma concepção puramente nostálgica da memória. O poeta recupera a história precisamente para a submeter a uma interpretação e para perguntar o que deve ser transformado. Em Kordian, a experiência da derrota conduz à procura de uma nova forma de acção; em Grób Agamemnona, a recordação do passado funciona como instrumento de autocrítica nacional. A nação não aparece como realidade acabada e imutável, mas como comunidade que pode sofrer, falhar e transformar-se. Por isso, a história assume uma dimensão dinâmica: recordar o passado significa compreender o presente e criar as condições simbólicas para imaginar um futuro diferente.
O exílio constitui uma dimensão decisiva desse processo. Tal como Mickiewicz, Słowacki pertenceu à geração afectada directamente pelas consequências da Insurreição de Novembro e passou grande parte da vida fora dos territórios polacos, estabelecendo-se em Paris após as suas viagens pela Europa e pelo Médio Oriente. No entanto, no seu caso, a experiência do afastamento manifesta-se frequentemente através de uma tensão entre a paisagem estrangeira e a impossibilidade de regressar à pátria. Essa tensão é particularmente visível no Hymn o zachodzie słońca na morzu (Smutno mi, Boże!) (Hino ao pôr do sol no mar (Triste estou, meu Deus!), escrito em 1836 durante a viagem marítima para o Egipto. O sujeito poético, diante da beleza do mar e do pôr-do-sol, confessa repetidamente: « Triste estou, meu Deus!)». A distância geográfica intensifica a solidão e transforma a paisagem exterior num espaço atravessado pela memória da pátria:
«Triste estou, meu Deus! No ocaso, para mim,
derramaste no céu um arco-íris de esplendor;
diante de mim apagas, no azul sem fim,
a estrela ardente em flor…
E embora assim me dês ao céu e ao mar fulgor,
Triste estou, meu Deus!
Como espigas vazias, de cabeça levantada,
estou, sem gozo algum, sem sede satisfeita…
Aos olhos dos estranhos, minha face sossegada
guarda a serenidade perfeita.
Mas diante de Ti abro o peito e o coração:
Triste estou, meu Deus!
Como a criança que, quando a mãe se vai,
se queda em pranto e em abandono infindo,
assim, ao ver o sol que sobre as ondas cai,
seus últimos lampejos despedindo,
embora saiba que amanhã nascerá nova aurora,
Triste estou, meu Deus!
Hoje, no vasto mar, perdido e desvairado,
a cem milhas da terra, a cem milhas do cais,
vi as cegonhas sulcarem o céu, em longo traçado,
em fila, como um cortejo de sinais.
Porque as conheci outrora no pousio polaco,
Triste estou, meu Deus!
Porque tantas vezes meditei junto à sepultura,
porque quase não conheci a casa em que nasci,
porque fui como um peregrino em sua longa amargura,
que entre relâmpagos pela estrada segui,
sem saber onde um dia o meu corpo depor,
Triste estou, meu Deus!
Tu hás de ver os meus ossos brancos, abandonados,
sem guarda, sem colunas, sem pedra tumular;
e eu sou como aquele que inveja os sepultados,
as cinzas que encontraram onde repousar.
Pois me preparas um leito que não sei onde será,
Triste estou, meu Deus!
No meu país mandaram uma criança inocente
rezar por mim todos os dias, em oração;
mas eu sei que o meu navio, levado pela corrente,
não navega de volta à minha nação.
E porque a prece de uma criança nada pode,
Triste estou, meu Deus!
Para o arco-íris de luz, tão vasto e deslumbrante,
que os Teus anjos no céu estenderam,
novos homens, cem anos depois de mim, num instante,
hão de olhar — e os que hoje vivem já morreram.
Antes que diante do meu nada me curve e me dobre,
Triste estou, meu Deus!» (SŁOWACKI, 2012, p.166-167, trad.própria)
A interpretação do poema como expressão da experiência do emigrante é reforçada pela própria situação biográfica de Słowacki naquele período. O exílio, contudo, não conduz apenas à nostalgia. Em Słowacki, a distância pode também favorecer uma visão mais ampla da história e da condição nacional. A pátria deixa de ser somente um território perdido e passa a ser um problema histórico e espiritual: o que aconteceu à comunidade, por que razão sofreu a derrota e que transformação poderá permitir o seu renascimento? É neste sentido que a dimensão espiritual da obra de Słowacki deve ser compreendida. A partir da década de 1840, a sua reflexão desenvolve-se numa direcção cada vez mais marcada pelo pensamento genealógico e espiritual, no qual a história dos povos é entendida como processo de transformação (KLEJNER, 1999; JANION, ŻMIGRODZKA, 1978).. O sofrimento nacional pode adquirir significado, mas não como simples glorificação da derrota: ele deve conduzir a uma mudança do indivíduo e da comunidade.
Essa passagem do sofrimento para a esperança encontra uma expressão particularmente clara em Testament mój (O Meu Testamento), escrito em Paris entre 1839 e 1840. O poema combina a consciência da morte e da solidão do poeta com uma mensagem dirigida às gerações futuras. Słowacki pede aos vivos que não abandonem a esperança e que continuem a trabalhar pelo futuro da comunidade: «Mas eu vos conjuro: que os vivos não percam a esperança
e levem diante da nação o archote da luz» (SŁOWACKI, 1974, p. 43-44). A seguir, associa a educação ao sacrifício colectivo: «E, quando for preciso, caminham, um a um, para a morte,
como pedras que Deus lança sobre a trincheira» (Ibidem). A literatura aparece, assim, como forma de transmissão entre gerações: a morte do indivíduo não interrompe a sua participação na história, porque a sua obra e o seu testemunho podem continuar a actuar sobre aqueles que vêm depois. A continuidade entre memória, transmissão e futuro permite compreender a literatura não apenas como lugar de conservação de uma identidade, mas também como instrumento de projecção colectiva.
Em Słowacki, portanto, memória e futuro permanecem inseparáveis. A história das derrotas, da repressão e do exílio constitui o ponto de partida, mas não o destino final da comunidade. Kordian transforma a experiência histórica em projecto de acção; Grób Agamemnona converte a memória em crítica e exigência de transformação; Hymn o zachodzie słońca na morzu revela a dimensão íntima do exílio; e Testament mój transforma a experiência individual do poeta numa mensagem dirigida às gerações futuras. A nação é, deste modo, representada como uma comunidade em processo, cuja continuidade depende não apenas da conservação da memória, mas também da capacidade de imaginar a sua transformação. Esta passagem da memória para a projecção do futuro constitui um dos aspectos que permitirá, mais adiante, estabelecer uma aproximação entre diferentes formas de poesia nacional, sem apagar as diferenças históricas entre os contextos polaco e moçambicano. É neste sentido que Słowacki participa na construção simbólica do imaginário nacional polaco: não apenas preservando uma imagem da comunidade perdida, mas concebendo o sofrimento histórico como matéria para a construção de um futuro nacional.
Literatura, língua e território na construção da comunidade nacional
A relação entre literatura, língua e território constitui outro elemento fundamental da construção da comunidade nacional polaca no século XIX. Depois das partilhas, quando os territórios polacos foram incorporados em três diferentes estruturas políticas, a comunidade nacional já não podia apoiar a sua continuidade exclusivamente em instituições estatais comuns. A língua polaca, a literatura, as tradições, os costumes e as representações do território adquiriram, por isso, uma função integradora. A literatura tornou-se um espaço no qual referências culturais dispersas podiam ser reunidas e reconhecidas como pertencentes a uma mesma comunidade. Neste contexto, a língua não funciona apenas como instrumento de comunicação: torna-se suporte da memória e meio de preservação de uma identidade colectiva. A relação entre língua, memória e comunidade permite considerar a literatura como um espaço de preservação identitária, sobretudo em contextos históricos nos quais a pertença colectiva não coincide com a existência de uma estrutura política soberana.
Esta função é particularmente evidente em Pan Tadeusz. A obra de Mickiewicz reconstrói através da língua um mundo territorial e cultural que já não estava disponível ao poeta como realidade política. A Lituânia evocada na Inwokacja, as paisagens, os bosques, os campos, as propriedades familiares, os costumes e as relações sociais compõem uma geografia literária que transforma o território em memória partilhada. Os nomes de lugares não têm, portanto, apenas valor descritivo: situam a comunidade num espaço reconhecível e contribuem para reconstruir simbolicamente uma pátria ausente. A famosa invocação «Litwo! Ojczyzno moja!» condensa precisamente esta relação entre nomeação, território e pertença. A nomeação poética do território pode, deste modo, funcionar como uma forma de inscrição da comunidade no espaço: dar nome aos lugares significa também conservar referências através das quais um grupo reconhece a sua própria história e a sua pertença. Esta função dos nomes de lugares será retomada mais adiante, de forma específica, na análise da poesia de José Craveirinha.
A mesma relação entre espaço e identidade pode ser observada em Słowacki, embora através de procedimentos diferentes. Em Hymn o zachodzie słońca na morzu, a distância geográfica torna a pátria uma referência interior, enquanto em Kordian o espaço europeu percorrido pelo protagonista funciona como cenário para a sua transformação e para a descoberta de uma missão nacional. No Monte Branco, a paisagem estrangeira transforma-se num lugar de reflexão sobre o destino da Polónia; depois, a referência à «rodzinna ziemia» («terra natal») reinscreve essa experiência universal no espaço concreto da comunidade. O território não é, assim, apenas um espaço físico: é uma realidade carregada de memória, afecto, história e significado colectivo.
A língua literária permite ainda conservar tradições e formas de vida que poderiam ser ameaçadas pela fragmentação política. Em Pan Tadeusz, por exemplo, a descrição de costumes, relações familiares, cerimónias, paisagens e práticas sociais preserva uma imagem cultural da comunidade (KRYSOWSKI, 2024). Em Słowacki, a linguagem poética assume uma função diferente, mais marcada pela metáfora histórica, pelo mito e pela visão espiritual, mas também contribui para transformar a experiência nacional em referências partilháveis. O poema Testament mój mostra particularmente bem esta função, ao apresentar a obra do poeta como herança destinada às gerações seguintes. A literatura não conserva apenas palavras: conserva interpretações do passado, valores e imagens através das quais uma comunidade pode reconhecer-se. A língua literária pode, assim, constituir um espaço de memória e de reconhecimento colectivo, mesmo quando a comunidade se encontra submetida a uma estrutura política que não corresponde à sua própria representação de pertença.
Deste modo, língua, memória e território formam uma cadeia fundamental para compreender a construção simbólica da comunidade nacional: a língua permite nomear e transmitir; a literatura organiza a memória; a representação do território fornece um espaço comum, mesmo quando esse espaço já não corresponde a uma realidade política soberana. Em Mickiewicz, esta operação manifesta-se sobretudo na reconstrução literária da pátria perdida; em Słowacki, na transformação do território, da história e da experiência do exílio em imagens de luta, mudança e futuro. Os dois poetas recorrem, portanto, a estratégias diferentes, mas a literatura desempenha em ambos uma função que ultrapassa a representação estética: cria um espaço simbólico no qual uma comunidade privada de Estado pode preservar referências comuns e imaginar a sua continuidade histórica. É precisamente a articulação entre língua, memória, território e comunidade que permitirá, nas partes seguintes deste estudo, ampliar a análise para contextos em que a literatura também participa na afirmação de uma pertença colectiva perante formas de dominação política e cultural. A comparação com a poesia de Noémia de Sousa e José Craveirinha será desenvolvida apenas posteriormente, tendo em conta as diferenças históricas e coloniais entre os respectivos contextos.
JOSÉ CRAVEIRINHA E NOÉMIA DE SOUSA NA CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO LITERÁRIO MOÇAMBICANO
Poesia, identidade e invenção do imaginário moçambicano
A literatura moçambicana constitui-se historicamente num espaço de tensão entre a experiência colonial, a memória africana, a afirmação identitária e a construção de uma comunidade nacional. Neste processo, José Craveirinha e Noémia de Sousa assumem uma posição particularmente significativa, não apenas por integrarem uma geração decisiva da poesia moçambicana, mas porque a sua escrita participa da elaboração de imagens, símbolos, memórias e representações através das quais se tornou possível imaginar Moçambique como comunidade cultural e política.
Francisco Noa compreende a literatura moçambicana como um sistema semiótico que, embora possua autonomia estética, mantém uma relação dinâmica com o contexto histórico e social em que é produzida. A literatura estabelece, desse modo, um jogo de representações no qual se articulam obra, realidade, memória e imaginação (NOA, 2008, p. 35). A partir desta perspectiva, a poesia de Craveirinha e Noémia de Sousa não deve ser reduzida ao simples testemunho da experiência colonial.
Ela constitui também uma forma de produção simbólica, na medida em que recupera experiências, territórios, memórias, corpos, línguas e referências culturais que haviam sido marginalizados pelas representações coloniais. Este ponto aproxima-se da concepção de Benedict Anderson (2008), para quem a nação constitui uma “comunidade imaginada”. A comunidade nacional não depende do conhecimento directo entre todos os seus membros; depende, antes, da construção de uma representação partilhada de pertença. A literatura participa dessa construção ao produzir imagens capazes de relacionar sujeitos dispersos através de uma memória, de um território e de um horizonte comum.
É nesse sentido que a poesia de Craveirinha e Noémia pode ser entendida como espaço de elaboração de um imaginário moçambicano. Não se trata de afirmar que os dois autores representam de forma total ou exclusiva a identidade nacional, mas de reconhecer que contribuíram decisivamente para a construção de determinadas imagens de pertença. O “eu” poético ultrapassa frequentemente a dimensão individual e passa a enunciar experiências colectivas. Para Noémia, essa realidade articula-se com a condição negra, a experiência feminina, a África, a memória e a violência colonial; Craveirinha, manifesta-se sobretudo na relação com a terra, os nomes, as línguas, a oralidade, o trabalho, a exploração e a memória cultural.
Pires Laranjeira identifica, no desenvolvimento da poesia moçambicana associada à Negritude, a emergência de uma produção voltada para as classes, o trabalho e o quotidiano colonial, reconhecendo Craveirinha e Noémia de Sousa como figuras fundamentais desse processo (LARANJEIRA, 2001, p. 190). A importância desses autores encontra-se, portanto, também na transformação da poesia em espaço de disputa pela representação. A questão não consistia apenas em escrever sobre Moçambique, mas em disputar quem poderia nomear a terra, a história e o sujeito africano.
Neste aspecto, a reflexão de Frantz Fanon contribui para compreender a dimensão histórica dessa disputa. O colonialismo não actua apenas através da dominação política e económica; produz igualmente imagens e categorias através das quais o colonizado é representado. A recuperação da capacidade de se representar constitui, consequentemente, uma dimensão importante da ruptura com a ordem colonial (FANON, 2008). A poesia de Craveirinha e Noémia inscreve-se nesse processo ao deslocar o sujeito africano da posição de objecto de representação para a condição de sujeito da enunciação.
Essa transformação manifesta-se na poesia de Noémia de Sousa de forma particularmente expressiva na construção da África como referência de identidade. Sangue Negro, a África deixa de ser apenas espaço geográfico observado exteriormente e passa a constituir memória, corpo e pertença. No poema “Se me quiseres conhecer”, o sujeito poético estabelece uma relação directa entre a sua identidade e a experiência histórica e cultural africana. O poema inicia-se com o convite:
«Se me quiseres conhecer,
estuda com os olhos bem de ver
esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde
de mãos inspiradas
talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.» (SOUSA, 2016, p. 40).
O conhecimento do sujeito implica, assim, o conhecimento da história que o constitui. A identidade não aparece como realidade abstracta, mas como resultado de uma relação entre corpo, território, memória e experiência colectiva. A afirmação individual contém uma dimensão comunitária: conhecer o “eu” exige conhecer a história de África.
Essa relação entre memória individual e memória colectiva também se manifesta em “Poema da infância distante”. A infância é recuperada não simplesmente como experiência privada, mas como acesso a uma paisagem cultural e afectiva. O passado pessoal torna-se, desse modo, uma via para a recuperação de uma memória mais ampla. Em vez de uma memória puramente individual, encontramos uma memória atravessada pela experiência histórica de uma comunidade (SOUSA, 2016, p. 42).
A mesma articulação encontra-se em “Sangue Negro”. A expressão que dá título ao poema concentra a relação entre identidade, ancestralidade e consciência. O sangue deixa de funcionar apenas como elemento biológico e adquire significado histórico e simbólico. A África torna-se origem e pertença, enquanto a afirmação da identidade negra constitui uma resposta à desvalorização produzida pelo colonialismo. A poesia, neste caso, não recupera o passado para nele permanecer; transforma-o em fundamento de uma consciência capaz de projectar outro futuro.
Desenvolve Craveirinha uma operação semelhante, embora através de uma poética que concede particular importância à geografia, à língua, à oralidade e à representação do território. No Xigubo, publicado em 1963, a terra e a cultura constituem elementos fundamentais da afirmação identitária. Ana Mafalda Leite interpreta essa dimensão como articulação entre “direito cívico” e “direito cultural”, fazendo da afirmação literária um lugar de construção da moçambicanidade (LEITE, 1991, p. 34).
O elemento é particularmente evidente em “Hino à minha terra”. O poeta transforma os nomes dos lugares em matéria poética:
«E grito Inhamússua, Mutamba,
Massangulo!!!
E torno a gritar Inhamússua, Mutamba,
Massangulo!!!» (CRAVEIRINHA, 2015, p. 30).
A repetição dos topónimos produz uma cartografia poética. O território não é apresentado como simples espaço físico, mas como espaço de memória e pertença. Os nomes recuperados pelo poema funcionam como marcas de uma geografia cultural que antecede e sobrevive à nomenclatura colonial. Nomear é, nesse contexto, uma forma de reivindicar.
O poema amplia essa cartografia através da referência a diferentes línguas e espaços culturais. O território moçambicano é imaginado na sua diversidade, e a unidade nacional não resulta da eliminação das diferenças, mas da sua articulação numa representação comum. A análise de Noa sobre a força identitária da nomeação em Craveirinha confirma esta dimensão, ao interpretar “Hino à minha terra” como uma forma de pronunciamento identitário, cultural e colectivo.
A questão da língua ocupa, por isso, lugar central. Craveirinha escreve em português, mas a língua portuguesa aparece atravessada por vocábulos, ritmos e referências provenientes das culturas moçambicanas. Essa operação não representa simplesmente a introdução de palavras africanas num texto português; constitui uma transformação do próprio espaço linguístico da poesia.
Ana Mafalda Leite chama atenção precisamente para essa dimensão da escrita de Craveirinha, na qual a língua portuguesa é retrabalhada através da oralidade e das línguas africanas. A combinação entre português e elementos provenientes das línguas moçambicanas constitui uma estratégia de construção de uma linguagem literária capaz de expressar a experiência cultural do sujeito moçambicano.
A questão torna-se particularmente visível em Karingana ua Karingana. O próprio título recupera uma fórmula associada à tradição oral e desloca-a para o espaço da poesia escrita. No poema:
«Este jeito
de contar as coisas
à maneira simples das profecias
Karingana ua Karingana
é que faz a arte sentir
o pássaro da poesia.» (CRAVEIRINHA, 1974, p. 3).
A presença da fórmula oral não constitui mero elemento decorativo. Ela estabelece uma relação entre a escrita e formas anteriores de transmissão da experiência. A poesia apropria-se da oralidade e transforma-a em procedimento estético, fazendo da tradição uma componente activa da escrita moderna.
É importante pelo facto de a literatura deixar de depender exclusivamente de modelos formais herdados da tradição europeia. A escrita passa a dialogar com formas africanas de transmissão da memória. O resultado é uma poesia em que oralidade, ritmo, repetição e linguagem escrita participam conjuntamente da construção da identidade.
Noémia de Sousa também relaciona identidade e resistência, mas acrescenta a essa problemática uma voz feminina particularmente importante. A mulher não aparece apenas como figura representada, mas como sujeito que observa, sofre, recorda e questiona a ordem colonial. A sua poesia introduz, assim, no imaginário literário moçambicano, experiências que não podem ser reduzidas a uma narrativa nacional exclusivamente masculina.
Por exemplo, “Magaiça”, a experiência do trabalhador migrante revela a articulação entre exploração económica, deslocação e ruptura das relações comunitárias. O corpo africano aparece inserido numa estrutura económica colonial que ultrapassa as fronteiras de Moçambique. O trabalhador que parte leva consigo a necessidade económica, mas também deixa para trás relações familiares e comunitárias. O poema encontra-se em Sangue Negro, na secção Munhuana 1951 (SOUSA, 2016, p. 73).
Craveirinha aborda igualmente a experiência do trabalhador e da exploração colonial. “Grito Negro”, a conhecida metáfora do carvão condensa a transformação do trabalhador africano em instrumento da economia colonial:
«Eu sou carvão!
Tenho que arder na exploração
Arder até às cinzas da maldição» (CRAVEIRINHA, 2015, p. 27).
A metáfora possui uma dupla dimensão. O carvão representa a exploração do trabalhador, reduzido a matéria útil ao sistema económico; simultaneamente, contém a possibilidade do fogo. A consciência da exploração introduz, portanto, uma possibilidade de resistência. A poesia transforma a experiência económica em consciência histórica.
A relação entre exploração e consciência permite aproximar prudentemente a poesia de Craveirinha da reflexão de Fanon. Não se trata de afirmar uma equivalência entre a teoria de Fanon e a poesia do autor moçambicano, mas de reconhecer que ambas colocam em questão a representação do colonizado como objecto e sublinham a necessidade de recuperar a capacidade de afirmação do sujeito submetido à dominação.
A afirmação identitária aparece também no tratamento do corpo negro. Em “Manifesto”:
«Meus belos e curtos cabelos crespos
e meus olhos negros» (CRAVEIRINHA, 2015, p. 5).
O corpo, anteriormente submetido a padrões de inferiorização racial, torna-se objecto de valorização. A poesia recupera cabelos, olhos, mãos, músculos e pele como elementos de beleza e pertença. Esta dimensão permite compreender a proximidade de Craveirinha com a Negritude, embora a sua obra não se esgote nessa classificação. Como observa Laranjeira, a Negritude foi importante na formação de uma consciência literária africana, mas a poesia de Craveirinha desenvolve uma relação própria com a experiência moçambicana (LARANJEIRA, 1995).
A afirmação na poesia de Noémia assume igualmente uma dimensão corporal e histórica. O corpo negro é simultaneamente lugar de violência e de resistência. A África aparece como memória incorporada, e a experiência feminina articula-se com a experiência colectiva da colonização. Desta forma, a autora amplia o campo do imaginário nacional ao introduzir uma voz feminina que participa da construção da comunidade sem desaparecer dentro dela.
A comparação entre os dois autores revela, assim, aproximações e diferenças importantes. Ambos transformam experiências individuais em referências colectivas, mas fazem-no através de estratégias distintas. Noémia privilegia a memória, a África, o corpo, a condição feminina e a experiência da opressão; Craveirinha enfatiza a terra, os nomes, a língua, a oralidade, o trabalho e a geografia cultural. As duas poéticas convergem, porém, na transformação da experiência colonial em matéria de afirmação identitária.
É nesse ponto que o conceito de comunidade imaginada de Anderson adquire maior utilidade analítica. Os poemas não descrevem uma comunidade nacional já plenamente constituída; ajudam a produzir representações através das quais essa comunidade pode ser concebida. A enumeração dos lugares em Craveirinha e das línguas cria uma imagem territorial e cultural de pertença. A memória de África para Noémia e a transformação do “eu” em voz colectiva produzem uma representação histórica e afectiva da comunidade.
A dimensão torna-se especialmente clara no “Poema do futuro cidadão”, de José Craveirinha. O poema apresenta a nação como realidade ainda por realizar:
«Vim de qualquer parte
de uma Nação que ainda não existe.» (CRAVEIRINHA, 2015, p. 11).
A formulação é particularmente significativa porque estabelece uma relação directa entre literatura e futuro. A nação ainda não existe plenamente enquanto realidade política, mas já pode ser imaginada. O sujeito poético apresenta-se como “futuro cidadão”, transformando a poesia num espaço de antecipação de uma comunidade que ainda está em construção.
No “Hino à minha terra”, Craveirinha utiliza igualmente a imagem das “cidades do futuro” e associa a geografia moçambicana a uma temporalidade que ultrapassa o presente colonial. O território é simultaneamente memória e projecto. A terra que o poema nomeia pertence ao passado cultural, mas também ao futuro imaginado.
E Noémia a próxima em diferentes momentos da sua poesia. A sua representação de África não se limita à recuperação nostálgica de um passado perdido; ela procura transformar a memória em fundamento de uma identidade capaz de enfrentar o presente colonial. Assim, a memória funciona como recurso de resistência e como possibilidade de futuro.
A partir deste ponto, torna-se possível estabelecer, com cautela, a ponte comparativa com Adam Mickiewicz e Juliusz Słowacki, desenvolvida a seguir. A comparação não pressupõe equivalência histórica entre Polónia e Moçambique. Os contextos são diferentes e devem permanecer historicamente diferenciados. O que pode ser comparado é a função que determinadas formas literárias desempenham na construção de uma memória colectiva e na imaginação de uma comunidade política.
No caso moçambicano, contudo, essa função apresenta uma especificidade decisiva: a construção de um imaginário nacional ocorre no interior de uma situação colonial, na qual a própria representação do sujeito africano estava submetida a relações de poder. Por isso, imaginar a nação significava também disputar as formas através das quais Moçambique e os seus habitantes eram representados.
É justamente nesse sentido que Craveirinha e Noémia podem ser considerados criadores de um imaginário literário moçambicano. Eles não receberam uma identidade nacional pronta para ser simplesmente reproduzida. Através da poesia, contribuíram para a sua elaboração simbólica. A terra, a memória, o corpo, a língua, a oralidade, o trabalho e a experiência colonial são reorganizados literariamente para produzir imagens de pertença.
A questão central deste tópico pode, portanto, ser respondida afirmativamente: a poesia de José Craveirinha e Noémia de Sousa participa da construção de um imaginário moçambicano porque transforma experiências históricas fragmentadas em representações de pertença colectiva e porque imagina uma comunidade que ultrapassa a realidade colonial imediata. Craveirinha realiza sobretudo pela nomeação da terra, pela reinvenção linguística, pela oralidade e pela representação do trabalhador e do corpo negro; Noémia realiza através da memória africana, da afirmação identitária, da experiência feminina e da transformação da dor colonial em consciência colectiva.
A literatura não aparece, assim, como simples espelho da realidade colonial. Ela constitui um espaço em que essa realidade é interpretada, disputada e simbolicamente transformada. É nesse movimento que a poesia adquire uma dimensão histórica: ao nomear a terra, recuperar a memória e imaginar o futuro, Craveirinha e Noémia ajudam a tornar pensável uma comunidade moçambicana para além das estruturas de representação colonial.
LITERATURA, MEMÓRIA E FUTURO: UMA LEITURA COMPARATIVA DE MICKIEWICZ, SŁOWACKI, CRAVEIRINHA E NOÉMIA DE SOUSA
A análise desenvolvida anteriomente permite estabelecer um diálogo comparativo entre Adam Mickiewicz, Juliusz Słowacki, José Craveirinha e Noémia de Sousa a partir de uma questão comum: como a literatura participa na elaboração simbólica de uma comunidade em contextos históricos marcados pela dominação, pela perda ou restrição da soberania e pela necessidade de afirmação identitária? A comparação, contudo, não parte da ideia de que a experiência polaca e a experiência moçambicana sejam equivalentes. Pelo contrário, a sua produtividade depende precisamente do reconhecimento das diferenças históricas que as constituem.
Na realidade polaca, Mickiewicz e Słowacki escrevem num contexto marcado pelas partilhas da Rzeczpospolita e pela ausência de um Estado polaco soberano. A literatura assume, nesse quadro, uma função relevante na preservação da memória da pátria, na representação do sofrimento colectivo e na projecção de um futuro nacional. No contexto moçambicano, Craveirinha e Noémia de Sousa escrevem no interior de uma estrutura colonial, em que a dominação portuguesa não incidia apenas sobre as instituições políticas e económicas, mas também sobre as formas de representação do território, da cultura e do sujeito africano.
A diferença é fundamental. A Polónia de Mickiewicz e Słowacki é uma comunidade que procura recuperar a soberania perdida; o Moçambique de Craveirinha e Noémia é uma comunidade que procura afirmar-se no interior de uma ordem colonial. Assim, não se pode estabelecer uma equivalência histórica entre os dois contextos. O que pode ser comparado são determinadas operações literárias: a recuperação da memória, a representação do território, a transformação do sofrimento em consciência colectiva e a imaginação de uma comunidade futura.
A noção de “comunidade imaginada”, de Benedict Anderson (2008), permite compreender este ponto de contacto. Uma comunidade nacional não depende exclusivamente da existência de instituições políticas; ela também se sustenta em representações partilhadas de pertença. A literatura participa desse processo ao produzir imagens da pátria, da terra, da memória e do futuro. Contudo, no presente artigo, o conceito não é utilizado para afirmar que a literatura cria a nação isoladamente. A construção nacional é um processo histórico, político, social e cultural complexo, no qual a literatura constitui apenas uma das formas de produção simbólica. É precisamente nessa dimensão simbólica que os quatro autores podem ser aproximados.
Memória e território
A memória da pátria para Mickiewicz constitui uma das principais formas de preservação da comunidade. Pan Tadeusz reconstrói paisagens, costumes, relações sociais e referências territoriais associadas ao mundo perdido da antiga Rzeczpospolita. O território torna-se memória porque é reconstruído através da linguagem. Para Dziady III, por outro lado, a memória assume uma dimensão histórica e colectiva: o sofrimento individual de Konrad transforma-se em representação do sofrimento de uma comunidade.
A relação entre memória e território no caso de Craveirinha assume outra configuração. No poema “Hino à minha terra”, os topónimos não funcionam apenas como elementos geográficos. A sua repetição produz uma cartografia poética através da qual a terra é transformada em espaço de pertença. A nomeação constitui, assim, uma operação simbólica: ao nomear a terra a partir de referências culturais moçambicanas, o poeta participa na construção de uma representação alternativa à ordem colonial.
A aproximação entre Pan Tadeusz e “Hino à minha terra” é, portanto, possível ao nível da função literária do território, mas não ao nível da experiência histórica. Mickiewicz reconstrói uma pátria associada a uma soberania perdida; Craveirinha contribui para imaginar uma comunidade nacional ainda submetida ao colonialismo. Ambos, contudo, a terra deixa de ser simples espaço físico e transforma-se em memória cultural.
Do sofrimento à consciência colectiva
Outro ponto de contacto encontra-se na transformação da experiência individual em representação colectiva. Mickiewicz, Konrad ultrapassa a dimensão individual quando afirma a sua identificação com a nação. Para Słowacki, essa transformação assume uma orientação diferente: a experiência da derrota e do exílio conduz à reflexão crítica sobre a própria comunidade. Kordian e Grób Agamemnona não se limitam a lamentar a derrota; procuram compreender as razões do fracasso e pensar a possibilidade de transformação.
Também Craveirinha e Noémia transformam experiências individuais em formas de consciência colectiva. No “Grito Negro”, o trabalhador explorado deixa de ser apenas uma personagem individual e passa a representar uma condição social produzida pelo sistema colonial. Noémia, o sujeito poético transforma a memória pessoal e a experiência do corpo negro em afirmação de uma identidade historicamente negada.
A aproximação com Fanon (2008) deve, contudo, ser feita com prudência. As poesias de Craveirinha e Noémia não são aplicações literárias da teoria fanoniana. O que existe é uma convergência temática e histórica em torno da recuperação do sujeito submetido à dominação. A poesia desloca o africano da condição de objecto representado para a condição de sujeito que fala, recorda e interpreta a própria experiência.
Quatro formas de imaginar a comunidade
A comparação permite identificar quatro tendências predominantes. Constrói Mickiewicz a comunidade sobretudo através da memória da pátria. O território perdido, os costumes, a paisagem e as gerações formam uma continuidade simbólica que mantém viva a ideia de comunidade. Desenrola-a Słowacki por intermédio da interpretação crítica da história e da projecção do futuro. O sofrimento nacional não deve simplesmente ser recordado; deve ser compreendido e transformado em possibilidade de renovação.
Faz Craveirinha usando terra, da língua, da oralidade e da geografia cultural. A sua poesia participa na recuperação de referências que permitem imaginar Moçambique como comunidade culturalmente plural. Noémia de Sousa realiza por via da memória africana, do corpo, da experiência feminina e da afirmação identitária. A sua contribuição é particularmente importante porque introduz no imaginário nacional uma voz feminina que não pode ser reduzida à experiência nacional pensada exclusivamente a partir de uma perspectiva masculina.
Estas quatro formas não são exclusivas. Mickiewicz também imagina o futuro; Słowacki preserva a memória; Craveirinha trabalha a história e Noémia imagina uma transformação futura. O quadro serve apenas para destacar os centros de gravidade de cada poética.
A comparação também evidencia que o imaginário nacional não é homogéneo. Não existe uma única forma de representar a comunidade. Para Mickiewicz, a reconstrução da pátria pode assumir uma dimensão nostálgica e idealizada. Essa idealização em Słowacki é frequentemente contrariada pela crítica às próprias fraquezas da sociedade polaca. A nação pode ser simultaneamente objecto de amor e de crítica.
No caso de Craveirinha e Noémia também constroem formas diferentes de pertença. Craveirinha privilegia frequentemente a terra, a linguagem, a oralidade e a experiência social; Noémia coloca em primeiro plano a África, a memória, o corpo e a condição feminina. Por isso, não se deve afirmar que os dois representam “o” imaginário moçambicano. Mais rigorosamente, participam na construção de um imaginário moçambicano, entre vários imaginários possíveis.
Essa distinção é fundamental porque impede que a literatura nacional seja entendida como representação de uma identidade fixa. A identidade é construída através de disputas, memórias, esquecimentos e diferentes formas de narrar a comunidade.
Memória do passado e imaginação do futuro
O ponto talvez mais significativo da comparação encontra-se na relação entre memória e futuro. Mickiewicz escreve a partir de uma pátria ausente; Słowacki a partir de uma pátria que precisa de se transformar; Craveirinha sobre uma nação que ainda está por realizar; Noémia transforma a memória africana em fundamento de uma consciência que ultrapassa o presente colonial. A literatura funciona, assim, simultaneamente como arquivo e projecto. É arquivo porque conserva experiências, nomes, paisagens, corpos, costumes e memórias ameaçadas pela dominação ou pela distância. É projecto porque permite imaginar uma comunidade diferente daquela que existe no presente.
A dupla função explica a importância da literatura na construção dos imaginários nacionais. O escritor não é apenas aquele que regista a realidade. Ele participa na disputa pelos significados da realidade. Ao nomear uma terra, recuperar uma memória, representar um corpo ou imaginar um cidadão futuro, a literatura produz possibilidades de interpretação da comunidade.
É neste sentido que a comparação entre os quatro autores se torna produtiva. Mickiewicz, Słowacki, Craveirinha e Noémia de Sousa não representam a mesma experiência histórica nem produzem a mesma ideia de nação. O que os aproxima é a capacidade de transformar experiências históricas específicas em formas literárias de memória, pertença e futuro.
Considerações finais
A análise desenvolvida permitiu compreender que a literatura pode desempenhar uma função relevante na construção simbólica da identidade, da memória e da consciência colectiva, sobretudo em contextos históricos marcados pela dominação política, pela perda ou restrição da soberania e pela necessidade de afirmação de uma comunidade. Verificou-se que a criação literária não se limita à dimensão estética, podendo constituir um espaço de preservação da memória histórica, de representação da experiência colectiva e de projecção de novos horizontes de pertença e de futuro.
No caso de Adam Mickiewicz e Juliusz Słowacki, a literatura romântica polaca assumiu particular importância na preservação simbólica de uma comunidade privada de soberania estatal após as partilhas da Polónia. Mickiewicz recorreu à memória da pátria, ao território, ao exílio e à continuidade entre gerações para reconstruir literariamente uma comunidade dispersa e submetida à dominação estrangeira. Słowacki, por sua vez, transformou a derrota, o sofrimento, o exílio e a crítica histórica em reflexão sobre a transformação e o futuro nacional. Deste modo, os dois poetas participaram, embora através de estratégias literárias distintas, na elaboração de um imaginário nacional polaco.
Ademais, no contexto moçambicano, José Craveirinha e Noémia de Sousa contribuíram para a construção de um imaginário literário relacionado com a afirmação identitária e com a formação da consciência colectiva em contexto colonial. Craveirinha desenvolveu essa construção através da valorização da terra, da nomeação dos lugares, da oralidade, da língua, do corpo negro, do trabalho e da experiência colonial. Noémia de Sousa, por sua vez, articulou a memória africana, a identidade negra, a experiência feminina e a violência colonial, transformando a experiência individual em expressão de uma consciência colectiva. Ambos participaram, assim, na disputa pelas formas de representação do sujeito e da comunidade moçambicana.
Verificando-se que os contextos polaco e moçambicano apresentam diferenças históricas fundamentais, então a comparação entre os quatro autores não pode ser entendida como equivalência entre experiências de dominação. A Polónia enfrentou a perda da soberania de um Estado anteriormente constituído, enquanto Moçambique viveu uma experiência colonial caracterizada pela dominação política, económica e cultural. São, portanto, processos históricos distintos. O ponto de contacto encontra-se na capacidade da literatura de responder a experiências de ruptura, subordinação e perda, produzindo formas simbólicas de memória, identidade, pertença e imaginação do futuro.
No bojo desta comparação, a literatura pode ser entendida não apenas como reflexo da realidade histórica, mas como espaço de intervenção simbólica na forma como uma comunidade se representa e compreende a sua própria existência. Em Mickiewicz e Słowacki, a memória da pátria, o exílio e a perda da soberania foram transformados em matéria de elaboração do imaginário nacional polaco. Craveirinha e Noémia de Sousa, a experiência colonial, a memória africana, a terra, o corpo, a língua e a cultura foram mobilizados para afirmar formas de pertença e questionar representações produzidas pela ordem colonial.
Em suma, o estudo comparativo revelou que Adam Mickiewicz, Juliusz Słowacki, José Craveirinha e Noémia de Sousa participaram, em contextos históricos diferentes, na construção de imaginários literários capazes de preservar memórias, afirmar identidades, questionar formas de dominação e projectar comunidades futuras. A literatura não constitui, por si só, a origem da nação ou da consciência nacional, mas fornece imagens, símbolos, narrativas e linguagens através dos quais comunidades historicamente situadas podem reconhecer o passado, interpretar o presente e imaginar o futuro.
Portanto, a principal conclusão deste artigo é que, entre a memória daquilo que foi perdido, a experiência daquilo que é vivido e a imaginação daquilo que ainda pode existir, a literatura constitui um espaço privilegiado de construção simbólica da comunidade. Mais do que escritores que simplesmente representam as suas respectivas nações, Mickiewicz, Słowacki, Craveirinha e Noémia de Sousa podem ser compreendidos como participantes de processos distintos de elaboração da identidade colectiva. As suas obras demonstram que, quando a soberania é perdida, restringida ou ainda está por conquistar, a literatura pode tornar-se um dos lugares onde a comunidade continua a recordar, a afirmar-se e, sobretudo, a imaginar aquilo que pretende vir a ser.
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Autores:
Vieira Mário Mauelele
Historiador, Advogado, Escritor e Mestrando em Administração Pública e Desenvolvimento - Escola de Governação - Universidade Joaquim Chissano. Email: vieiramario.mario@gmail.com
Renata Díaz-Szmidt
Investigadora e Especialista em Estudos Literários, Professora de Literaturas Africanas no Instituto de Filologia Românica da Universidade Jaguelónica, em Cracóvia, Polónia.
Email: renata.diaz.szmidt@uj.edu.pl
Vieira Mário Mauelele e Renata Díaz-Szmidt
Vieira Mário Mauelele é historiador, advogado, escritor e mestrando em Administração Pública e Desenvolvimento - Escola de Governação - Universidade Joaquim Chissano e Renata Díaz-Szmidt é investigadora e especialista em Estudos Literários, professora de Literaturas Africanas no Instituto de Filologia Românica da Universidade Jaguelónica, em Cracóvia, Polónia.