O vento frio da sexta-feira e sábado levou-nos a Matutuine. Um destino, até ao fim-de-semana último, pouco explorado para eventos culturais. Mas a pirâmide de visitantes àquele distrito virou completamente, colocando uma moldura humana que desafiou temperaturas baixas e aqueceu as duas noites de celebração dos 40 anos de carreira do “Menino de Chamanculo”, o Jimmy Dludlu.
Porque os 40 anos não se fazem sozinho, o “Menino de Chamanculo” chamou para o Ônix Events amigos da infância – alguns que se exibem artisticamente e outros nem por isso. Um dia seria pouco para tamanha celebração, por isso que este “menino”, ousado, preferiu dois dias. O primeiro foi dedicado aos amigos de Moçambique – os In The Groove –, mas o dia seguinte as atenções ficaram viradas para o que ele viveu fora-de-portas, trazendo amigos do outro lado da fronteira – C Base Colective.
A primeira noite, ainda que inspirasse boas vibrações, começou tímida, com o frio a subir pelas entranhas. Passeavam pela relva do Ônix pouca gente, mas quando Prince Chone deu o primeiro sopro, já havia gente suficiente para arriscar aplausos.
“Jimmy Dludlu é uma daquelas personagens que sempre me fascinou, desde criança cresci a escuta-lo e os primeiros passos que tomei dentro de jazz foram acompanhados pela sua música, para além de que muitas das minhas composições tem como base Jimmy Dludlu”, reconhece Chone, jovem de 23 anos, quase metade dos anos de carreira do “Menino de Chamanculo”.
A casa, que não é pequena, distribuída entre vários espaços cómodos, diga-se, já ficava preenchida e o perfume sonoro do Dj Sérgio Butler já exalava pelos quatro cantos de Matutuine, este local improvável que mereceu a atenção da Top Produções, arriscando sua melhor infraestrutura de palco, som e luz para uma festa que claramente deixou saudades.
Pika Tembe encontrou o público formado e deu o melhor de si. Ele e a sua gaita revisitaram êxitos estrangeiros como “Lose control”, de Teddy Swims e um pouco do seu repertório, como Inês, para além de propostas locais, como “Culpado” de Irmão Mbalua e “Maria” da célebre banda Xiora Mati.
Onésia Muholove trouxe a sua marca ao concerto, lembrando se tratar de uma das melhores vozes femininas da actualidade. Mingas, quem com ela partilhou o palco, não deixou os seus créditos de matriarca da música moçambicana em “vozes alheias”. Entre músicas leves como “Hoya Hoya” e “Ndzumba” e as mais agitadas como “Xikongolotana”, a eterna jovem levou-nos para revisitarmos as suas melhores propostas sonoras.
Stewart Sukuma e Banda Kakana encerraram a lista de convidados para o primeiro dia, com performances para lá de interessantes e ajustadas à exaltação de um “monstro” da guitarra. Sukuma trouxe, como não podia faltar, a sua “Felisminha”, que dançou “Xitchuketa marrabenta” sem deixar cair a “Batata-doce”. Kakana, doce, diga-se, seleccionou o melhor dos seus dois álbuns, afinal, lá “Suhura”, “Mufolhe” e “Serenata”.
O sábado e os internacionais…
Para Gabriela é um momento de felicidade e muita alegria “ver um colega a completar 40 anos de carreira. Isso estimula-nos e incentiva-nos a correr a ver se chegamos lá também.
O Menino de Chamanculo
E o monstro lá veio, como ele próprio, de fato, óculos e chapéu e, claro, com a sua inseparável guitarra em tira-colo.
Apesar do sucesso alcançado nas duas noites de celebração dos seus 40 anos de carreira, Jimmy Dludlu reconhece que o concerto ficou marcado por um momento de profunda tristeza: a morte de Chico Nuvunga, ocorrida na véspera do evento.
Nuvunga, juntamente com Jimmy Dludlu e o produtor Zema, foi um dos idealizadores deste espectáculo, sonhado e preparado a três mãos. Por isso, a realização do concerto teve um significado particularmente emotivo para todos os envolvidos.
“Fomos enterrar o Chico Nuvunga ontem e o maior sonho dele era ver este show", partilhou Zema, visivelmente emocionado. Jimmy Dludlu reforçou o sentimento de homenagem ao amigo: “Mas, graças a Deus, conseguimos continuar com o sonho dele”.
Tudo parte em 1979, com 14 anos e parte em 1982, vai completar 60 anos,
Elcídio Bila
Oficial de comunicação e criativo com mais de 10 anos de experiência em jornalismo, assessoria de imprensa, edição e produção cultural. A sua trajectória destaca‑se pela versatilidade, cruzando media, criação literária e projectos socioculturais. Reúne competências em escrita criativa, edição de imagem, vídeo e design gráfico, complementadas por capacidade de liderança e gestão de equipas.