Um viajante aéreo nunca poderá ter uma ideia da imensidão do céu pairando sobre a terra quando é severamente restringido por uma visão limitada, drenada por toda a sua paixão.
Uma viagem marítima, por outro lado, é uma questão totalmente diferente. Ao cruzarmos as vastas extensões do mar e do céu, estamos cheios de um ardor quase obsessivo. É essa paixão intensa que nos leva a acreditar na existência de continentes desconhecidos e na possibilidade de morar neles.
Maria Lazer sempre quis anotar essas ideias num livro. Mas ela sempre considerou que escrever um diário era uma irritação. Para ela, sentar-se encolhida em um canto, frente a uma lâmpada a abarrotar as páginas de um diário com pensamentos pessoais era como fazer amor consigo mesma. Seria um retiro; um rastejar para dentro de si mesmo. Para ela, isso também significava um medo enorme do oceano.
Maria tomou consciência das ideias hipnóticas que possuíam a sua mente enquanto examinava os mapas antigos para estudar as rotas marítimas antigas.
Nos últimos três dias, tinha ficado trancada numa sala olhando os mapas antigos. Lá fora chovia muito e as estradas estavam todas submersas pela água. A bela rececionista do balcão avisara-a dos perigos que correria ao sair para procurar algum lugar em particular com aquele temporal.
Mas, Maria estava completamente cansada do quarto do hotel. Ela também não gostava de estar ali a ver a chuva. E como ela tinha uma chaleira elétrica e os outros ingredientes indispensáveis, fez café no quarto… duas vezes! Quando estava a tomar mais um gole daquele café, percebeu que o quanto o café indiano não era tão saboroso como o café Facienda.
Depressa se cansou do sabor e foi para o restaurante que estava quase vazio. Sentou-se e ficou a ver o menu. O mordomo apareceu algumas vezes recebendo uma piscadela dos olhos dela cada vez que passava junto dela. Quando passou pela terceira vez, Maria disse-lhe: "Se me disser quando a esta chuva vai acabar, peço uma tigela de sopa!
Mas ele apenas sorriu como resposta e ela não gostou. Então ela levantou-se e saiu.
"Essa mulher é louca”.
Confidenciou o mordomo ao garçom no seu idioma pensando que ela não o conseguia entender o comentário dele.
Mas ela percebeu e virou –se para ele e fez uma “careta”.
Quando chegou ao elevador, Maria viu que este tinha parado algures num dos andares superiores. Enquanto o elevador descia foi observando os números que iam sendo iluminados, de cor vermelha. Terminada a contagem regressiva e, quando a porta do elevador se abriu, ela pulou para dentro dele. E outra pessoa entrou antes que as portas se fechassem - um homem. Era Ahmed Muslin.
O homem estava encharcado pelas águas do mar e seus músculos suportavam a força das ondas. Maria sentiu o odor do oceano enchendo o elevador.
Enquanto bebia aquele cheiro do mar e, com uma visão profunda, sentiu o gosto de sal na língua e o barco à vela batendo-lhe no peito, rolando para lá e para cá. Debaixo de seus pés, os grãos de areia deslizavam firmemente e ela ouvia as gaivotas. Quando ela olhou profundamente nos olhos dele, o mar estremeceu outra vez.
E, de repente, ela foi consumida pelo medo de ser deixada de lado…. numa terra distante.
Novamente, o seu navio estava balançando perigosamente.
"Qual o andar, senhora?"
"O quinto."
Ahmed Muslin estava a olhar para a camiseta solta. Ele queria muito sugerir-lhe que usasse um sutiã, enquanto os olhos dele se demoravam no barco a vela entre os seus seios, Maria abriu a porta do quinto andar e saiu. O quarto dele ficava no sexto andar. Enquanto ela caminhava pelo corredor, sentiu uma enorme vontade de rir!
Dentro de seu quarto, ela voltou ao seu mapa. Quando o abriu, ela murmurou para si mesma:
"Eu deveria ter perguntado o nome dele, deveria ter ..."
Mais tarde, Maria encontrou-o novamente no restaurante.
Ele veio até ela, cumprimentou-a e depois apresentou-se
"Ahmed Muslin"
"Então você é nativo de aqui, não é? Diga-me quando esta chuva vai parar e eu peço uma sopa para si!"
"A chuva já parou, a água registada na cidade foi drenada para o mar e agora o mar está cinza."
"Graças a Deus!"
"Mas eu não tomo sopa!"
Enquanto caminhavam em direção ao elevador, Maria o convidou para seu quarto.
Talvez me possa me ajudar! Está ocupado com algum trabalho agora?
"Não. Não tenho nada para fazer até o sol nascer!"
Juntos, eles saíram do elevador.
No quarto, tudo estava uma bagunça, roupas espalhadas no chão com livros e mapas espalhados por toda a cama. Havia diários de rotas marítimas, diários de viagem de marinheiros antigos e uma lista de nomes antigos e novos de cidades e países. Empurrando-os para dentro do armário, ela ficou triste:
"Vamos-nos sentar na cama, é mais fácil ler os mapas aqui".
Maria abriu um mapa para mostrar seu país a Ahmed Muslin.
Um pequeno país no meio do Atlântico. Uma terra de homens bruxos que partiram para
explorar continentes escuros navegando pelas águas revoltas do Atlântico. Ela desfilou elogios aos marítimos que traçaram novas rotas com uma bússola.
Então parou abruptamente, ela perguntou:
"Sabe porque estou aqui? O nosso governo quer instituir uma cadeira na vossa universidade para investigar em nossos antigos navegadores - os heróis do nosso país."
Ela continuou a explicar ainda mais o projecto.
“A maioria do seu governo estava disposta a investir para tirar esses viajantes do mar do esquecimento e colocá-los num pedestal digno de suas ações.”
"Comecei minha pesquisa no mar apenas por curiosidade. Agora, as passagens que foram traçadas há séculos estão a ficar cada vez mais claras para mim, e eu viajo com elas nos meus sonhos.
P. Surendan
P. Surendan é um renomado contista e romancista indiano. Ele também actua como escritor de relatos de viagem e crítico de arte. Publicou mais de 40 livros, muitos dos quais foram premiados na Índia. Ele visitou Moçambique anos atrás. Anteriormente, trabalhou como professor. Actualmente, reside em Kerala, um estado no sul da Índia. Muitos de seus contos foram traduzidos para o inglês e publicados em diversos periódicos na Índia e no exterior, incluindo a Kalahari Review, uma importante revista literária de Botswana.