Cheguei ao Coconuts quase às 22h00. Essa era a hora em que o concerto iria arrancar. No interior, já havia vida, animação, com o DJ a sublinhar a temática do evento com propostas que nos empurram para essas sonoridades: funk. Reconheci muitos outros, das artes, sobretudo. Mas só os rostos, porque os trajes eram diferentes, inusitados, dos tempos passados: fatos de cores fortes, calças à boca de sino, camisas de colarinhos largos, sapatos de plataforma, correntes, óculos escuros, brincos grandes, pulseiras e acessórios chamativos, cabelo volumoso e penteados marcantes.
Assim estava o Coconuts. Como eu, reservados, eram poucos. Cumprimentei alguns conhecidos. Elogiei os mais atrevidos. Encantei-me com o ambiente visual do palco, animações de cores vibrantes e padrões em movimento que criam uma atmosfera envolvente, inspirada na estética musical que nos levava de volta às décadas de 1970.
Deixa-me dizer isso com a profundidade que se merece: foi uma experiência audiovisual imersiva, marcada por painéis LED de grande formato, conteúdos gráficos exclusivos e animações psicadélicas inspiradas na estética funk; um desenho visual dinâmico, com cores vibrantes, padrões geométricos, texturas analógicas e movimentos sincronizados com a música, articulado com um desenho de luz preciso para criar uma atmosfera sofisticada, envolvente e cenicamente memorável.
Eu não estive nesse tempo, mas o João Roxo levou-me para aquele ambiente. Senti-me parte daquele mundo e, ao mesmo tempo, arrependi-me por não ter nascido antes. A sorte, a minha grande sorte, é que, desde o ano passado, Rui Soeiro trouxe uma «maluquice fantástica», o The Funk Off, esta proposta de colocar músicos diversos a interpretarem ritmos passados, que marcaram gerações, momentos, épocas e histórias.
Quando a El B Band assumiu a posição no palco, ou seja, quando Nelton Miranda, director do colectivo, se dirigiu à guitarra-baixo; Stélio Zoé, à bateria; Ebenezer Sengo, à guitarra-ritmo; Papy Miranda, ao teclado; Sarmento de Cristo, ao saxofone; Nando Morte e Luís Hernâni, à percussão; e Vekina, Helena e Cristalino, aos microfones dos coros, para uma (re)visita a «Summer Madness», dos The Kool & the Gang, tive a certeza de que havia atravessado os portões certos naquela sexta-feira cheia de calor. Sim, começava a viver a «loucura de verão». Os aplausos davam conta disso. Esta proposta, bem conseguida pela curadoria, é de 1974, mas era como se fizesse parte das músicas da actualidade, até porque o verão já desponta na Pérola do Índico, mesmo ali, no passeio do Coconuts.
As músicas que se seguiram cumpriram o desiderato de nos levar de volta ao passado ou, pelo menos, para nós, os de hoje, de nos apresentar aqueles tempos. Bhaka Yafole, que regressa nesta segunda edição, remexeu «Be Thankful», de William DeVaughn, e «Do Leme ao Pontal», de Tim Maia. De William, patavina, mas já tinha ouvido falar de Maia, mesmo que não conhecesse esta música propriamente. Esta característica, natural do The Funk Off, de poder colocar novas propostas no nosso vocabulário musical é, também, outro motivo que me fez aplaudir no final de cada actuação.
E assim foi até ao fim, até «Celebration», dos também Kool & the Gang. Portanto, este evento fez uma ponte entre essas duas músicas de uma banda que marcou décadas como referência mundial, conquistando fama internacional nos anos 1970 e 1980 com êxitos como «Jungle Boogie», «Ladies’ Night» e «Get Down on It», para além das músicas chamadas ao palco neste The Funk Off.
A travessia foi de duas horas… duas horas intensas, que não passam a correr, que se deliciam todos os minutos, a esfregar as mãos e os pés, a vibrar, electrizados. Ninguém se confinou no Coconuts, dos mais velhos aos mais jovens, mesmo sem ter vivido a época que se propunha.
Não era para menos. Ninguém resistiria a êxitos como «Get Down on It», dos Kool & the Gang, ou «Lose Yourself to Dance», dos Daft Punk, trazidos por Fill (Baby); ou a «Kind of Woman», de Janice, e «Don’t Mess with My Man», de Lucy Pearl, interpretados por Letícia Deozina; senão «Cool Cat», dos Queen, ou «Love to Love You Baby», de Donna Summer, assumidos por Naila Taquidir. Flávio Lisboa também se juntou à festa para cantar «Compacto» (Curumin) e «Noite do Prazer» (Cláudio Zoli). Já Nuno Soeiro atreveu-se com «Na Estrada», de Marisa Monte, e «Sugar», de Zubi. «Superstition» (Stevie Wonder) e «All Night Long» (Lionel Richie) são músicas que ganharam vida na voz de Yolanda Kakana.
Radjha Ally rompeu com o trajecto internacional ao colocar «Tsuketani», dos Kapa Dech, na vibracidade da noite. Mesmo marcante, foi sol de pouca dura. Ele mesmo, a seguir, encarnou Michael Jackson em «Don’t Stop ’Til You Get Enough», e Tandi Prista não deixou os seus créditos por mãos alheias em «Forget Me Nots» (Patrice Rushen) ou em «Uptown Funk» (Bruno Mars); muito menos Onésia Muholove, com «Master Blaster» (Stevie Wonder). Xixel Langa nem tampouco. Se perguntássemos aos The Whispers ou, se pudéssemos, a James Brown, diriam que os êxitos «And the Beat Goes On» e «Sex Machine», respectivamente, foram bem executados, para, no fim, termos a surpreendente actuação de Ras Haitrim em «Killing in the Name», dos RATM, antes, claro, da última “Celebration”, que colocou no palco todos os artistas da noite e encerrou, com chave de ouro, a segunda edição de um evento que já deixa saudades.
Elcídio Bila
Oficial de comunicação e criativo com mais de 10 anos de experiência em jornalismo, assessoria de imprensa, edição e produção cultural. A sua trajectória destaca‑se pela versatilidade, cruzando media, criação literária e projectos socioculturais. Reúne competências em escrita criativa, edição de imagem, vídeo e design gráfico, complementadas por capacidade de liderança e gestão de equipas.