- Posso ti pedir algo?
É claro que podes, mana. Como não? Se eu disse, no dia que te conheci, ali no James, em Laulane, para ficares à vontade e que os teus desejos em mim são uma ordem. Cumpro-os com prazer, sem olhar para trás e sem qualquer tipo de rumores. Tu podes pedir, sim, sempre. Mas atenção: seja lá o que for, peça, antes, 10 coisas. É que, minha mana, não faz sentido nenhum outro pedido distante desta lista, pequena, mas importante para início de conversa.
Então, é isso. Vamos lá! Peça, primeiro, um Curso de Formação Técnico Profissional. Curso? Deves estar a perguntar-te, incrédula, a saborear as palavras que te escrevo, nesta sexta-feira animada e animadora, por baixo desses óculos transparentes, mas que não são de vista. E imagino onde deves estar: no salão da vizinha, a caprichar-se para o próximo groove: para o James, novamente, ou para DejaVu senão a Catedral da Xpanha. Mas disseste, esperta que és, que estás com dores na garganta, porque sofres de amigdalites. Aliás, estou acostumado, mana, que nunca estejas bem quando trocamos mensagens. Há sempre uma dorzinha perdida em ti, preocupante, incómoda, e que deve terminar em um “confirmado”.
Hoje, infelizmente, não me preocupam as tuas dores. Não que esteja insensível, que seja duro, ou que não atenda sofrimentos alheios, sobretudo de uma mulher que jurei proteger. É que hoje, mana, decidi que a escola deve ser o meu foco. Repetidas vezes recebo esta mensagem mal formulada, onde o “i” rouba o espaço do “e”, para além de outras torturas linguísticas quando recebo um SMS teu.
Não que eu não possa te oferecer um curso médio, desses de dois anos, ou Superior, ainda que seja numa privada, mas a coisa aqui é urgente. Em um ano temos que mudar as coisas. Tens vinte e muitos anos. A idade cobra-te responsabilidade financeira. Como terás tal responsabilidade se não tens um emprego, biscate que seja. Dinheiro dado é dinheiro condenado. Sempre usas como te apetece: de salão aos bares. Não pagas contas, as contas é que te pagam. Bom, não sei ao certo o que queria dizer aqui, apenas gostei da construção. Esquece. Vamos recuperar o pinto, aliás, o ponto.
O ponto é que eu até já sondei alguns cursos por aí. Sei que não te darias ao luxo de maltratares os teus “megas” com essas bobagens. Interessa-te, a ti, os novos makeups e outras “trends” do TikTok. Mais do que assistir, és a autora dos vídeos virais, mas não falas, não dizes nada, apenas colocas tua cara linda na tela, e fazes gestos obscenos com os lábios até o vídeo terminar. No fim aparece o nome: magregostosa. O ponto, como dizia, é que já fiz uma curta lista de cursos de curta duração, a iniciarem ainda neste mês de Março. Já que gostas de vídeos, de aparecer nas câmaras – mesmo sem dizer uma única palavra – penso que podias fazer Jornalismo Transversal e Multimedia, no Centro de Documentação e Formação Fotográfica. É ali na Josina Machel. Desculpa, sei que não entendes nada de avenidas. É atrás da Escola Francisco Manyanga, ou ao lado. Sim, na Baixa. Na verdade ali é no Alto Maé. E ainda bem. Apanhas um único ‘chapa’. À volta é a mesma rotina. Esquece Yango, filha. Porque a esta hora deves estar a pensar em valores-extras para esses chiliques. Talvez um lanche. As famosas Romany Cream. Ou um sorvete, caso tenha bom relatório do teu comportamento. Por que o espanto? Claro que vou me certificar de vais aulas. Tens de ter um certificado no fim e te habilitares ao estágio.
O curso começa às nove. portanto, podes dormir até tarde. Eu sei que não gostas de levantar cedo. És torturada pelo sono, porque há uma telenovela das vinte e duas que não perdes por nada. Tem duração de seis meses e tens outros três de estágio. Pois, estarás ocupada quase todo o ano. Diga-me se não sou um génio?!
Lá vais aprender a escrever notícias e nunca mais, Deus queira, vais escrever “Posso ti pedir algo?”. Vais aprender a produzir noticiários para televisão, rádio e internet. Deves estar a sorrir por teres lido “Internet”. É verdade, vais fazer vídeos informativos para o TikTok também. Diferentemente de hoje, que só colocas a tua cara linda apenas. Daqui a seis meses terás conteúdo. Tu não podes ser o único conteúdo dos teus vídeos. Não, mana. E isso de Magregostosa vais eliminar, porque tu tens nome, e a partir desse momento, vais ter orgulho de assinar nos vídeos: Teresa Nhantumbo.
E porque sei que gostas de fotos, o curso tem um módulo dedicado a fotojornalismo. Ah, não sabes o que é? É fotografia misturada com jornalismo, ou quase isso. Ou seja, comunicar – contar sobre um acontecimento através de fotos. Vais esquecer um pouco o teu rosto. Tu te amas excessivamente demais. Esquece biquinhos, esquece sorrisos redondos. Vais usar esse telemóvel para registar momentos e situações do dia-a-dia. Sei que queres trocar de celular, queres um iPhone 17. Quem sabe seja essa uma oportunidade de eu arriscar tal presente, porque antes do curso não vejo necessidade.
Espero que tenhas gostado da dica. Vou te inscrever na segunda-feira. Não preciso que digas nada. Vou pagar os seis meses de uma só vez. Só tens de ir, mana, e boa sorte, porque este é “o algo que tens para me pedir hoje”.
Elcídio Bila
Elcídio Bila é jornalista há 10 anos, escrevendo sobre artes e outros assuntos transversais. Tem passagens por dois órgãos de comunicação e diversos projectos de Media. Trabalha também como copywriter e Oficial de Relações Públicas em agências de comunicação. É fundador e director editorial do projecto Entre Aspas.