Num passado recente, decidi passar a tarde de Domingo num dos Senta-baixos de Xivotxongo e de outras bebidas com alto teor alcoólico (também conhecidas como bebidas espirituosas) no Bairro de Maxaquene, na Cidade de Maputo.
Enquanto eu caminhava em direcção ao local (ao Senta-baixo), a ressaca estendia-se à minha vista, infinita como sempre. Apesar da tontura, eu segui em frente. (Os meus comparsas, nessas andanças, sabem muito bem o tipo de tontura que me refiro...).
Aqui no Senta-baixo de xivotxongo e outras bebidas espirituosas, o nosso papo flui de forma descontraída, com muita risada à meio. A solidariedade e empatia entre os xivotxongueiros é excelente, diferente de outros lugares onde eu já tinha frequentado para tomar algumas geladinhas. Refiro-me, por exemplo, aos ‘bottle-stores’ espalhados pela TAWEN.
Lá nos bottle-stores reina um ambiente de exibicionismo, maior parte dos indivíduos que por lá frequentam já vão descendo dos seus carros ostentando dois telemóveis topo de gama numa só mão, e molho(s) de chaves na outra. As conversas em voz alta destes indivíduos cingem-se mais aos negócios: ora por que “ando bizi a tratar da papelada para desalfandegar os meus contentores que chegaram da China”; ora por que “acabo de enviar dois dos meus mecânicos para socorrerem um dos meus camiões de carga que avariou na zona X”, e por ai vai... Nota-se muito EUismo nas abordagens e conversas dos bottle-stores, para não falar do show-off evidente na hora de efectuar o pagamento de contas gordas, pagamento e transações em dinheiro, a cartão ou por via electrônica...
Como disse, aqui no Senta-baixo de xivotxongo não há essas frescuras, não há excessos na ostentação, o único excesso existente no Senta-baixo é o excesso de teimosia. A partir de uma simples conversa, chega-se à discussão e depois às vias de facto (violência), principalmente quando os protagonistas já se encontram alcoolicamente intoxicados.
O John Guillaz (um bro de ocasião que conheci ali no Senta-baixo naquele Domingo) apaziguou tantas conversas que iam dar em luta, e ele também mexeu com alguns dos seus companheiros com conversas infundadas que cheiravam a provocação. Tudo começou quando, em jeito de afronta, e querendo se mostrar superior aos demais (também vendedores ambulantes), afirmou para todo o mundo ouvir que ele era diferente dos seus companheiros, pois ele tinha marrado maningue e que só foi parar naquela vida de xivotxongo por que a conjuntura do país em que ele nasceu, não ajuda; por isso que ele terminou ai naquele ambiente, terminou ai como um consumidor assíduo de xivotxongo e vendedor ambulante de produtos de somenos importância pelas ruas da cidade.
- Haaa bay, esse vosso país não ajuda djoó. Vê-la por exemplo, eu como vendedor ambulante devia ter direito a um bom empréstimo no banco, mas para tal, pedem-me declaração de rendimentos! Onde vou apanhar declaração de rendimentos eu, se não trabalho para nenhuma instituição, e nem pago imposto? Edjó, eu faço conta-própria bay. E ainda por cima as taxas de juros são muito altas quando o banco te empresta taco, e são maningue baixas quando tu emprestas teu taco ao banco, faz-se isso aí? – indagou-se John Guillaz olhando para mim. E em seguida, eu acenei a minha cabeça negativamente em jeito de concordância com a sua pergunta, não podia deixá-lo sem resposta. Ao que ele prosseguiu, já fincado exclusivamente em mim:
- Bro, sabes o que é PIB de um país? - Eu disse NÃO.
Aparentemente impaciente e decepcionado comigo, ele decretou:
- PIB é Produto Interno Bruto, ouviste? – Eu disse “SIM, ouvi”, porém, me fiz de rogado e rebati o John Guillaz com outra pergunta:
- E o que significa Produto Interno Bruto?
Notei certo desconforto nos olhos do franzino John Guillaz, e logo conclui que o meu bro não sabia definir com as palavras certas o que significava Produto Interno Bruto de um país. E para contornar aquela vexaminosa situação, após a minha pergunta, o John Guillaz levantou-se às pressas e cochichou nos meus ouvidos “Sorry bro, venho já, vou a dábliu cí, vou mandar uma mija...”.
Naquele instante, e como que para salvá-lo daquela embaraçosa situação, acabava de chegar um outro individuo (também xivotxongueiro como nós) que disse chamar-se Khadafi. O Khadafi (ainda meio lúcido aquando da sua chegada) acompanhou a parte final do debate, e como forma de safar ao seu amigo, este definiu Produto Interno Bruto como sendo o valor total de bens e serviços produzidos em um país, estado ou cidade durante um período específico.
Após essa resumida, porém compreensível definição, o papo continuou a tomar contornos que tinham muito a ver com conceitos, definições e de vez em quando cultura geral etc. Mas a maior parte das vezes, entre os xivotxongueiros aí presentes, o bate-boca final sobrava para John Guillaz e Khadafi fecharem o assunto com arcas e farpas. Heei, esses dois digladiavam-se em quase todos os temas em debate... Até pareciam água e energia! Mas a boa coisa é que no final de cada debate ou discussão eles se abraçavam e riam-se as gargalhadas. A amizade deles era, de facto, muito forte.
O papo e a acentuação de voz subiam de tom à medida que o xivotxongo e outras bebidas espirituosas eram destemidamente consumidos debaixo daquela apetecível sombra. De repente surgiu um vuku-vuku no seio dos meus bros, acesas discussões que era difícil decifrar o real motivo ou causas para tamanho desentendimento, mas o que eu sabia é que se o John Guillaz estivesse metido em uma dessas discussões, então só ele podia ser o promotor da confusão ou o culpado da mesma.
Dois por três, o John Guillaz levantou-se do cansado tronco deitado na horizontal, num dos cantos daquele vasto quintal, e com o dedo em riste, apontou para um outro individuo xivotxongueiro que já não me recordo do nome, e ralhando algumas palavras que não consegui ouvir em perfeitas condições, ele se dirigiu ao Khadafi e “golou-lhe” sem hesitação. E no auge da incessante discussão apenas consegui ouvir: “Diz-se inflação da moeda, seu ignorante...”, e o Khadafi dizia “não, diz-se inflamação da moeda. Podes perguntar a qualquer pessoa abalizada nessa matéria de finanças não finanças. Teu problema é que você John Guillaz pensa que é mais inteligente que todos nós, tipo você é o único que marrou aqui entre nós. Nem todos somos ignorantes, estás-me a entender?...”.
Apesar da revolta do Khadafi, eu acho que o John Guillaz desta vez tinha razão. Acho que a linguagem certa é de facto, ‘inflação da moeda’ e não ‘inflamação da moeda’. Mas no ambiente dos Senta-baixos as coisas nem sempre são como são, mas sim, como se olham. E o olhar daqueles meus comparsas do xivotxongo era um olhar de inflamada esperança e não de actos realizados graças a alta inflação da nossa moeda. Eles, os meus bros, podiam não ter negócios bem estructurados como os negócios pertencentes aos frequentadores dos bottle-stores espalhados pela TAWEN, mas eles olhavam para os zigue-zagues da vida com uma dose superior de simplicidade e optimismo, apesar da intensa rotina alcóolica a que se encontravam mergulhados.
E devido a tal maldita rotina alcóolica que os meus bros se encontravam mergulhados, algum segmento da sociedade olhava para eles como se objectos fossem, eles eram olhados como se fossem um simples produto, mas não bruto, pois de bruto ou de brutalidade, eles nada tinham.
Não vou negar que devido ao consumo frequente e excessivo de xivotxongo e outras bebidas espirituosas, as faces dos meus comparsas encontravam-se, na sua maioria, inflamadas. No dia em questão, em vão tentei alertar sobre a necessidade de eles incluírem refeições ou petiscos nas suas bebedeiras, mas como disse, foi tudo em vão. Só eles, os xivotxongueiros mais antigos, podiam explicar os reais motivos que lhes levam a não se alimentarem como deve ser quando bebem.
Na verdade, o consumo excessivo de xivotxongo e outras bebidas espirituosas sem a devida alimentação, danifica a aparência física e pode causar sérios problemas de saúde mental. O John Guillaz e o Kadhafi são disso perfeito exemplo. Olhando minunciosamente para eles, consegui notar os seguintes efeitos colaterais resultantes do consumo excessivo de xivotxongo e outras bebidas espirituosas: áreas avermelhadas na pele, inchaço facial, lapso de memória, dificuldade de coordenação e equilíbrio, lentidão dos reflexos, fala arrastada, confusão mental e sonolência.
Por esse e por outros motivos, decidi, depois daquela sessão no Senta-baixo, dizer “Adeus” ao xivotxongo. Sim, poderei até ter conseguido me livrar do xivotxongo, mas nunca conseguirei me livrar da simplicidade e da alegria transmitidas pelo John Guillaz e pelo Kadhafi, em meio a tanta pobreza. De lembrar que (segundo Marquês de Maricá), a alegria do pobre, ainda que menos durável, é sempre mais intensa que a do rico. E nada agrava mais a pobreza de um indivíduo que a mania de querer parecer rico.
Tenciono um dia, levar o John Guillaz e o Kadhafi para emprestarem um pouco da sua simplicidade e gargalhadas aos frequentadores exibicionistas dos bottle-stores espalhados pela TAWEN.
Almejo um dia, ver o John Guillaz e o Kadhafi puderem chegar no bottle-store e descerem dos seus carros com os dois telemóveis topo de gama nos bolsos das suas vestimentas, molho(s) de chaves no outro bolso, e pagarem suas contas gordas sem tanto show off.
Anseio vê-los, um dia, ganharem coragem suficiente de dizer “Adeus xivotxongo”, e passarem a consumir bebidas com reduzido teor alcoólico, de modo a viverem mais saudáveis para o resto das suas vidas, com noção clara do impacto que o Produto Interno Bruto e a Inflação da Moeda podem ter na facilidade ou não dos seus tais almejados empréstimos bancários.
Sim, aspiro neste novo ano, saber que o John Guillaz e o Kadhafi não mais culparão a conjuntura do país para justificarem os seus vícios, dentre eles, o de consumo excessivo de xivotxongo naquele Senta-baixo que se localizava no bairro de Maxaquene, na cidade de Maputo.
Samuel Benjamim
Samuel Benjamim, desde adolescente gostou de escrever poesias e prosas, para além de cantar e tocar instrumentos musicais. Gostou também de praticar desporto, em especial o futebol, tendo representado uma das equipas da cidade de Tete, em escalões mais jovens. Cedo emigrou às Caraíbas onde permaneceu pares de anos. De volta a pátria, estudou Economia Laboral e Industrial, e, posteriormente, Administração de Recursos Humanos. A prematura exposição profissional levou-o ao complexo, infinito e gigante ramo da indústria pesada. Conta, com duas obras literárias lançadas no mercado nacional, nomeadamente: (Tr)ilha de (T)rimas (Tr)inchadas Vol.1 e Litera(cul)turando Vol. 1.