Crítica e Crónicas

Como é que posso lhe dizer que não faz o meu tipo sem magoar os seus sentimentos?

Como é que posso lhe dizer que não faz o meu tipo sem magoar os seus sentimentos?

Os dias passavam como nuvens fecundas prontas a desenhar chuviscos na terra, e, ostensivamente, as noites viviam devorando os céus; eu insistia em súplicas para que voltasse à escola

Tavete não podia ter morrido

Tavete não podia ter morrido

Não disse mais nada porque o meu corpo tinha tido outro rumo, a fala contornava-me a alma e todo silêncio pintava a camiseta que insuportou a fragilidade dos dedos tensos da Graça

As mãos que inventaram a minha morte

As mãos que inventaram a minha morte

Ela estava tão alterada, com o rosto lívido, alma melindrada, olhos escuros tal qual o infortúnio que houve na casa do tio Vilanculos, onde os gestos desobedeciam os seus dizeres

Crime no confessionário

Crime no confessionário

Ao subir em direcção à estrada, para tomar o rumo da igreja, todos os vizinhos foram unânimes ao tomarem conta do ocorrência do crime, que Kandyane só podia ter o fim que teve

Que morra logo aquele animalzito de filho da Tina

Que morra logo aquele animalzito de filho da Tina

Estou muitíssimo nervosa, aqui em casa está sem luz e o silêncio é um cão faminto que morde no escuro. Encosto à porta e, pausadamente, vou içando as calças das cortinas na janela, uma claridade se estabelece

Edinise, o meu filho virou comida de balas

Edinise, o meu filho virou comida de balas

Mais uma coisa: amanhã farei uma pequena cerimônia, vou enterrar algumas roupas dele e cravar na lápide o seu nome com o ensanguentado ano de 2021

A Bíblia dos mortos

A Bíblia dos mortos

É uma pena, pois nunca levei jeito para contar histórias, nem para que levasse o meu finado irmão ao jardim, quiçá com um sorriso pendido num dos cabides quaisquer da árvore enquanto admirávamos o canto dos pássaros

Edinise, eu sei que ele me ama... Ele nunca me bateu!

Edinise, eu sei que ele me ama... Ele nunca me bateu!

Agora sem a faculdade, a minha rotina melhorou muito. Ele obrigou-me a entrar pra o ginásio, hehehe quer ver-me gostosa. Diz que estou gorda e a deixar de ser atraente

Custa dizer... Palavra e Invocação

Custa dizer... Palavra e Invocação

Pensando no alcance designativo do Roberto Chitsondzo. Custa dizer amor – é de todos deste álbum – a convocação contra a inércia humana. É a recusa penetrante. Mas o que será: procurar uma casa em toda gente?

SEXTA DE EMERGÊNCIA: décima noite (ou a última crónica)

SEXTA DE EMERGÊNCIA: décima noite (ou a última crónica)

Então, milagrosamente, decidi falar disto, deste azedume em estampar o meu último texto, cumprindo com a promessa de colocar, até à décima sexta, 10 crónicas

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Nona noite (ou o nono andar)

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Nona noite (ou o nono andar)

Recolhi para o canto da parede que divide os dois apartamentos, e deixei o meu corpo deslizar, quieto, ansiando, pelo menos, alguma música escorregar nos meus tímpanos ou algum barulho que bastasse

Edinise, hiii, nem te conto...

Edinise, hiii, nem te conto...

Quis tanto que fôssemos aqueles pais separados que, mesmo sem estar no mesmo tecto, continuam a amar os seus filhos

Isso de coisas tristes só nos poemas, sobrinho

Isso de coisas tristes só nos poemas, sobrinho

Há dias que eu acordo e descubro que só existo, são esses dias como hoje que mais me aumentam a certeza que deveria ter sido morto no incêndio junto da minha irmã, Lúcia

A arrogância do significado

A arrogância do significado

Mas pensar o significado é pensar o tempo; pensar o espaço; pensar o indivíduo. Será possível uma arte fora disto?

Não é pelos Thikyt. É pela Arte

Não é pelos Thikyt. É pela Arte

Mas os Thikyt, esses não. Devem responder tão logo, pois as abelhas já nos picam os lábios reivindicando o mel que nos ungiram e desapareceram com o favo todo

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Oitava noite (ou a prostituta)

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Oitava noite (ou a prostituta)

Não é que aqueles lábios redondos, deixando cair camadas de batom, como se fosse um camião de lixo em ziguezagues a madrugada, foram sabiamente eloquentes

Ode a Inércia do Sistema da Arte

Ode a Inércia do Sistema da Arte

Alguém chegou até a perguntar-me hoje: será que compensa? Ver uma Paulina a seguir para o segundo dia sem o banho? Um Mambucho sem beber. Um Leonel sem partilhar os lençóis?

De como chorei quando Palmira morreu

De como chorei quando Palmira morreu

Nesses dias, o país estava fodido: a pátria era objecto de fornicação geral; a nova liderança mentia e negava o novo presidente: Palmira estava no Brasil com a filha do presidente

“Uma de Gin, três tónicas e gelo”: uma ressaca que não dói

“Uma de Gin, três tónicas e gelo”: uma ressaca que não dói

E essa celebração é de todos nós. Nós que testemunhamos um artista que milagrosamente destila de cerveja para Gin, capaz de nos transportar numa narração límpida e polida sobre todos nós, ainda que te tenha como protagonista

E se todos criássemos a rebelião

E se todos criássemos a rebelião

Verdade, a rebelião terminaria depois dos Thikyt prometerem a NÓS; NÓS que transitamos e a aprendemos a ruminar a sensibilidade por aquilo que nos deram em apenas um Álbum

A morte da minha mãe

A morte da minha mãe

A sua dor, penosamente, erguia-se da cama de suas feridas no corpo, toda ensanguentada, e a minha mãe, esforçadamente, prendia o som tanto quanto à voz impedindo com que as lágrimas rompessem todas as barreiras espirituais

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Sétima noite (ou o Digital Influencer)

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Sétima noite (ou o Digital Influencer)

A noite estava para se extinguir, ou, pelo menos, já se avizinhava o badalado recolher obrigatório, quando cada um se infiltrou na sua caixa de quatro rodas e se escapuliu

“Descanse a alma para ficar mais perto de Deus, Júlia”

“Descanse a alma para ficar mais perto de Deus, Júlia”

Hoje, todos morreram: o meu irmão; meu pai; minha filha; minha mãe; Deus; meu tio, ah, tio Humberto, ali na parede, de olhos abertos a apalpar-me os seios à medida que o sono ia se retirando de mim

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Sexta noite (ou as duas bazucas)

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Sexta noite (ou as duas bazucas)

Antes de responder, subi novamente aquela garrafa de 550ml à boca. E o seu líquido dourado, descendo continuamente pela goela, arrefeceu a minha garganta em brasa

Mataram a minha mãe por ser pobre

Mataram a minha mãe por ser pobre

Ficávamos naquela pedra e víamos o dia a resvalar-se no lamaçal do tempo, as histórias tristes sobre o meu pai apagavam-se pouco e pouco

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Quinta noite (ou a última palavra)

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Quinta noite (ou a última palavra)

Já haviam outras mãos apoiando seus movimentos inválidos e mesmo que me pedissem para sair do seu corpo, as minhas não queriam. Manchado de sangue, ajudei a colocá-lo no carro e acompanhei-o ao hospital

Todo segredo está no caixão

Todo segredo está no caixão

Parei de chorar, engatinhei com as forças que haviam me restado, abracei a minha mãe, peguei-a pelos ombros, obriguei-a que fixasse seus olhos em mim…

“Murwandziwa”, de Xixel Langa: o clímax do amor

“Murwandziwa”, de Xixel Langa: o clímax do amor

É, sem dúvidas, um amor desmedido, sem limites, sem fronteiras e sem privações. Há, ainda, amores que ardem assim?

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Quarta noite (ou a mercadoria virgem)

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Quarta noite (ou a mercadoria virgem)

Logo que a Paula e aquele bando de estagiários saltaram do carro, feito um leão feroz, abracei a menina e de mansinho, puxei-lhe para os prazeres da minha mão sempre côncava

Notas sobre a “Âncora no ventre do tempo”

Notas sobre a “Âncora no ventre do tempo”

A viagem para LUFA-LUFA foi feita com sucesso, através do folhear das páginas do livro “ÂNCORA NO VENTRE DO TEMPO”, do jovem escritor moçambicano Fernando Absalão Chaúque

Crónica da Michelle Souza

Crónica da Michelle Souza

Bem, são essas coisas – esses fenómenos de que me referia a segundos: um artista é filho dos seus momentos; do seu tempo; dessa circunstância de que Gasset um dia falou

O morto que fugiu do cemitério

O morto que fugiu do cemitério

Alguns me perguntam sobre quem me engravidou, a minha boca perde boca porque eu detesto falar do César, mal soube que estava grávida apressou-se a casar com a esposa e nunca quis assumir a filha

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Terceiro dia (ou a boleia infernal)

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Terceiro dia (ou a boleia infernal)

O carro logo arrancou, sem mesmo perceber o que eu fazia naquele sítio imundo. Pelo chão, dois jovens tinham esticado suas barrigas nuas e, ao meu lado, uma senhora cumprimentava-me com as lágrimas

Milagre assassino?

Milagre assassino?

Que pena de mim, nunca fui orgulho para ninguém; sempre fui de dar problemas, talvez se existisse o meu pai, seria diferente

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Segunda noite (ou a promessa proibida)

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Segunda noite (ou a promessa proibida)

Esses sim, mesmo com a voz da minha mãe a sossegá-los, porque, supostamente, somos os donos da zona, preferiram ficar num lugar menos desvendado

O meu pai sumiu nos braços daquela prostituta

O meu pai sumiu nos braços daquela prostituta

O meu pai, antes de partir para a tropa, deu aulas de alfabetização, em Manica, em 1976, foi onde conheceu a Rute, uma prostituta profissional

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Primeira noite (ou o primeiro alvoroço)

SEXTA DE EMERGÊNCIA: Primeira noite (ou o primeiro alvoroço)

- Eu sou o comandante desta esquadra, já articulei com o teu chefe e com o chefe dele e com o chefe do chefe dele. Então isso que estás a dizer não vai mudar nada

Há homens cujo “adeus” não lhes cabe. Bang, és um deles!

Há homens cujo “adeus” não lhes cabe. Bang, és um deles!

Eu ria porque, mesmo com tanta gente à tua volta, de longe mais útil, lembravas que eu podia fazer alguma coisa

Um ano sem a Isabel

Um ano sem a Isabel

Naquela semana de Maio, em que a Isabel se recolheu às mantas da morte, o seu professor de Matemática, o Mateus, fizera a miúda engolir muitas piadas e ofensas pelos ouvidos

Yeah Bang, for life boy!

Yeah Bang, for life boy!

Daí do alto, cujo o descanso será eterno e em paz, verás os teus pupilos a fazerem isto “for life”, pois tu, mano Bang, és “for life”.

A minha mãe faleceu na mão de Deus

A minha mãe faleceu na mão de Deus

A minha mãe, Dulce Matusse, continua ali, até hoje, sentada na cadeira de madeira a observar a briga dos ventos, o sol já desceu e o sorriso ainda escorrega como escorregou em toda vida

Sérgio, Issufo e Átila: minhas figuras do ano

Sérgio, Issufo e Átila: minhas figuras do ano

Podia mencionar mais pessoas, a ajuda veio de toda à parte, de múltiplas formas, mas permitam-me que Sérgio, Átila e Issufo sejam minhas figuras do ano

Neste ano (incomum), não só noivei, criei a Entre Aspas

Neste ano (incomum), não só noivei, criei a Entre Aspas

Agradeço, assim, a todos que se deixam entrevistar para essa plataforma e deixam lá escorregar os seus textos e fotografias, bem como se permitem opinar e endireitar algumas ideias sem jeito que me brotam

Pensar a arte muito além das “grades” da moral social

 Pensar a arte muito além das “grades” da moral social

Aqui temos uma evidência local de que a música Yaba Buluku é também produto da disrupção cultural

Essa parte não entra no livro

Essa parte não entra no livro

Lá vai uma década que não transo, é que reservo um tempinho para escrever, dado que, a minha editora vive me pressionando

Um jornalista d’alma

Um jornalista d’alma

Afinal, testemunhei habilidades vindas de 14 países, mais de 5 línguas e uma infinidade performativa

Poetas d’alma encerra com mais de 17 performances de poesia, música, dança e emoções

Poetas d’alma encerra com mais de 17 performances de poesia, música, dança e emoções

Certeza há que o último sábado (21) vai entrar para a história do universo criativo e cultural moçambicano pelo esplêndido banquete servido desde às 14h00 até às 21h00

A insossegável tarefa de pensar o pós-independência

A insossegável tarefa de pensar o pós-independência

Antes de desviar para um outro lado, comentou que na altura do seu primeiro livro recebera inúmeras críticas, principalmente por ter sido uma mulher fora do círculo das mulheres de um pigmento misto

Ah…

Ah…

Agora que o Governo voltou com mais um incremento para o sector cultural e criativo, incidindo no cinema e audiovisual não me surpreenderia que a resposta aos cinco milhões de meticais, para além de projectos, sejam os famosos e conhecidos ahs

Mas quem nunca estacionou ali e fazer aquilo?

Mas quem nunca estacionou ali e fazer aquilo?

Se há um crime cujo toda a gente já cometeu é, de certeza, estacionar no lugar que se acredita mais escuro da vida, arear o assento ou que malabarismo a viatura permitir e…, pimba!, fazer aquilo

O que seria de nós sem as máscaras, álcool gel e, já agora, sem as chávenas?

O que seria de nós sem as máscaras, álcool gel e, já agora, sem as chávenas?

Desde que a pandemia nos serve de companhia, as máscaras e o álcool gel são de uma obrigatoriedade tal que até (já) fazem parte do nosso cardápio de caprichos

Vizinho de Emergência

Vizinho de Emergência

Um choro tímido, porém inquietante, aterrou lá de fora, como aterra o barulho das turbinas do avião sempre que o motor das aves quer pousar em Mavalane.

Esposa de Emergência

Esposa de Emergência

O grito estridente, mais agudo que estridente, arremessou as paredes ainda revestidas de um ziguezague de cimento sobre os blocos murchos e tombou nos ouvidos entupidos de sono da mãe das crianças.